O trabalho com diversos gêneros literários, melhora a capacidade leitora dos alunos e amplia seu repertório.
Por Januária Alves*
Tive o privilégio de editar, junto com Leusa Araújo (jornalista e autora da Ática) uma seleta de crônicas do nosso maior cronista: Rubem Braga. Se estivesse vivo, ele teria feito 100 anos em janeiro. O nosso projeto era homenageá-lo propiciando aos jovens leitores um contato com suas crônicas sob o ponto de vista do amor à natureza que ele sempre cultivou. Foi um projeto maravilhoso, especialmente pela oportunidade que tive de mergulhar no universo das mais de 15 mil crônicas deste autor e também eleger critérios para a seleção destes textos.
Tudo isso me fez pensar sobre a importância de oferecermos diferentes gêneros aos nossos leitores. Acredito que é só na diversidade que é possível escolher e só pode escolher, quem conhece bastante.
A questão dos gêneros vem sendo discutida na literatura desde Platão e Aristóteles, que já se preocupavam em distinguir poesia de prosa, por exemplo. A diferença entre lírico, épico e dramático de Platão é usada até hoje nos cânones literários.
O conhecimento dos diversos gêneros literários tem sido bastante trabalhado na escola visando a formação de leitores competentes porque trata-se de uma prática social: ou seja, conhecê-los implica em saber quais as diferentes formas de linguagem características de cada um, o que irá nos orientar sobre a forma mais eficiente de nos comunicar, que tipo de discurso devemos fazer para sermos compreendidos, etc. Isso é fundamental para a vida em sociedade e para a participação cidadã.
A educadora Ana Teberosky, grande estudiosa da questão diz que “Os propósitos comunicativos determinam os gêneros e estes dão forma aos textos“¹. Ou seja, conhecer diferentes tipos de textos e seus diferentes usos coloca o sujeito em condição de escolher aqueles que são adequados a diferentes objetivos, possibilitando que sua comunicação seja mais eficaz e também que sua compreensão do mundo que o cerca seja mais ampla. Conhecer os diferentes gêneros constrói repertórios ricos em possibilidades comunicativas. Segundo os Parâmetros Curriculares nacionais.
“A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a língua: características do gênero, do portador, do sistema de escrita etc.[...] Um leitor competente é alguém que, por iniciativa própria, é capaz de selecionar, dentre os textos que circulam socialmente, aqueles que podem atender a uma necessidade sua. Que consegue utilizar estratégias de leitura adequadas para abordá-los de forma a atender a essa necessidade.”²
Segundo as educadoras Miriam Orensztejn e Suzana Mesquita Moreira o contato com os diferentes gêneros forma leitores experientes e estes “… sabem selecionar textos adequados a diferentes propósitos. O ato de selecionar um texto para ler requer do leitor um conhecimento sobre a situação de comunicação em que está inserido, que envolve conhecer os interlocutores, saber onde procurar, como abordar o texto, qual texto é mais adequado a determinado propósito etc.”³.
Não me esqueço de uma oficina de confecção de jornais em que trabalhei com um grupo de crianças de diferentes faixas etárias com dificuldades de alfabetização. Foi fundamental para eles perceber a diferença entre os textos publicitários e os jornalísticos, por exemplo. “Para convencer, argumento, para informar, uso dados”, concluíram eles. E a partir daí, segundo sua professora deles, foi mais fácil trabalhar com eles textos ficcionais e informativos, poesia e contos de fadas, pois os meninos perceberam a diferença entre eles e como esse tipo de discurso pode ser usado para se informar, para aprender ou apenas para gostar de ler e escrever.
Nesse sentido, as coletâneas e seletas que as editoras têm disponibilizado aqui no Brasil são materiais riquíssimos em sua diversidade e qualidade literária, propiciando aos leitores a oportunidade de, inclusive, ter contato com diferentes gêneros a partir de um mesmo tema, como acontece em muitos volumes na famosa Coleção Para Gostar de Ler, da Ed. Ática, que esse ano faz aniversário. Aliás, foi por meio dela que conheci as crônicas de Rubem Braga, e que deu nesse papo nosso aqui!…
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*Januária Cristina Alvesibi é colaboradora pedagógica das Editoras Ática e Scipione. Atua como jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 25 livros publicados.




