Marcela Cálamo, autora, professora e cadeirante, continua neste post as suas reflexões sobre a inclusão do “diferente” na escola regular. Nesta série especial para o nosso blog, ela dialoga com educadores e pais sobre a educação para a diversidade.
Ilustração de Laurent Cardon no livro Rodas, pra que te quero!
Por Marcela Cálamo*
Como vocês já sabem, venho compartilhando por aqui a minha infância e as experiências de inclusão que vivi. Tornei-me paraplégica aos 6 anos e, após uma rápida passagem pela AACD, consegui (por insistência dos meus pais e por persistência de grandes educadoras) continuar meus estudos em escolas regulares.
A minha estadia na primeira delas foi bastante curta, mas me ensinou lições importantes. Na ânsia por fazer amigos, acabei deixando que outras crianças conduzissem a minha cadeira de rodas. Elas corriam pelas rampas comigo, o que logo virou um tipo de brincadeira. Acabei me sentindo um brinquedo, e não gostei. Estava acostumada com os amigos da AACD, que naturalmente usavam cadeiras de rodas, muletas e outros acessórios, e essa nova situação me surpreendeu. Dois meses depois, quando fui para outra escola, já havia aprendido que minha cadeira não deveria ser destaque.
Logo no primeiro dia na nova escola, conheci Maria Lucia. Foi amizade à primeira vista. Estávamos sempre juntas, na aula, no intervalo, nos trabalhos em grupo e, depois, em casa, pois morávamos muito próximas. Estudamos juntas até o primeiro ano do Ensino Médio e, mais tarde, ela se tornou madrinha do meu casamento e do meu primeiro filho, como já contei aqui.
Além de Maria Lúcia, fiz amizade com muitos outros da turma. Praticamente crescemos juntos, pois a cada novo ano a classe era mantida na sala térrea, por questões de mobilidade. Sabíamos os nomes de todos e a maioria se relacionava bem. E, depois da experiência na primeira escola, não deixei ninguém brincar com minha cadeira, pois aprendi que não precisava disso pra ter amigos.
Nessa fase, outra pessoa bastante importante para mim foi Valdir. Num ano em que perdi o transporte escolar (devido a uma mudança de horários das aulas), ele passou a ajudar meu irmão, um ano mais novo que eu, a me levar até a escola. A ladeira era grande; a tarefa, nada fácil. Quando Valdir soube que fazíamos o trajeto sozinhos, a “pé”, prontificou-se a passar todo dia em casa e empurrar a minha cadeira por metade do caminho. Mais de 20 anos depois, reencontramo-nos no Orkut e foi muito bom ver que a nossa amizade resistiu ao tempo!
Lembrando hoje dessa história, imagino que a direção e os professores da escola jamais tenham tomado ciência dessa dificuldade, tampouco imaginado a gentileza do meu colega. Ainda que, a meu ver, também seja função dos educadores a participação na vida dos alunos, não sei dizer se à época teriam tido condições de interceder por mim.
Resgato essa lembrança como exemplo vívido de como a inclusão achata diferenças e propicia o companheirismo. Todo mundo tem algo a dar e tem sempre alguém precisando receber.
___
*Marcela Cálamo é professora particular e autora de Rodas, pra que te quero! (Editora Ática, 2006). Paraplégica desde os 6 anos devido a uma infecção na medula, é mãe de dois filhos e vive rodando feliz por aí, sempre em busca da afirmação dos direitos das pessoas com deficiência.
2 Comentários
Adorei o texto, mãe.
Devemos sempre nos atentar para perceber o outro como um todo, com as suas particularidades, mas além de tudo um indivíduo, e como tal merecedor de todo o respeito.