A obrigatoriedade do cinema brasileiro nas nossas escolas

O cinema brasileiro é uma ferramenta de reflexão apurada sobre a cultura audiovisual e suas relações entre sociedade, expressão e poder, creem os cineastas Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi. Mas será que a obrigatoriedade da exibição nas escolas representa o melhor caminho para a formação de consciências?

As Melhores Coisas do Mundo (2009), fotografia de Beatriz Lefèvre/Divulgação.

Cena de As Melhores Coisas do Mundo (2009).
Fotografia de Beatriz Lefèvre/Divulgação.


Por Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi*

A Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados aprovou em maio passado, por unanimidade, o projeto de lei que institui a obrigatoriedade da inclusão de filmes brasileiros no currículo escolar do Ensino Básico (PL 7507/2010).

Ainda em tramitação, esse pequeno texto, de autoria do senador Cristovam Buarque, pode trazer enormes mudanças nos patamares de conhecimento de alunos e professores: “A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais”, determina.

Em nossa avaliação, o ganho substancial da proposta consiste em sua tentativa clara de corrigir a incapacidade histórica da Educação brasileira de se libertar da burocracia excessiva, que não proporciona a flexibilidade e nem a agilidade necessárias para que as instituições de ensino incorporem e reflitam sobre as novas formas de expressão e conhecimento que se desenvolvem no mundo, dia após dia.

A produção e a expressão audiovisual tornaram-se há décadas a forma dominante de espalhar conhecimento e produzir linguagem. Audiovisual não é apenas sinônimo de expressão artística. Audiovisual é sinônimo de poder, porque se tornou ferramenta hegemônica na construção de “formas de verdade”.

Enquanto telenovelas, telejornais, videoclipes e filmes de cinema dominam a forma de encarar e pensar o planeta, os cidadãos ainda não aprendem (e, portanto, não são convidados a refletir) que essas formas de expressão são resultado de uma construção com roteiro, direção e montagem. Tomam por verdade o que lhes é apresentado, com baixíssimos níveis de reflexão.

Acreditamos que a assimilação de que toda a “verdade” audiovisual é uma construção instala um novo patamar de consciência crítica. E que entender a mecânica por trás da produção audiovisual é uma possibilidade que oferece em si o domínio de uma ferramenta libertadora e capaz de elevar as condições de cidadania no país.

O cinema brasileiro é, seguramente, a melhor porta de entrada para a capacitação de professores e alunos para a habilidade de reflexão sobre o audiovisual – e, por consequência, de reflexão sobre todas essas relações entre sociedade, expressão e poder. A sétima arte produz transformações em suas linguagens numa velocidade que nenhuma outra das seis artes conheceu, lembra-nos o roteirista francês Jean Claude Carrière. Um texto do século 19 não é tão diferente de um texto produzido hoje, porém, um filme do começo do século 20 é extremamente diferente dos filmes exibidos hoje nos cinemas.

Essas transformações que conciliam valores sociais, formas de expressão e evolução tecnológica precisam ser pensadas e refletidas no grande útero da cidadania que é a escola. E para essa reflexão ontológica, o cinema brasileiro se mostra um meio tão importante quanto a literatura para pensarmos sobre a história, a identidade e as linguagens que temos escolhido para nos manifestar, tanto nas expressões de massa, quanto de vanguarda estética.

Possuir repertório, domínio de sintaxe e linguagem audiovisual é absolutamente imprescindível para um país que enfrenta o desafio de qualificar seus trabalhadores e cidadãos e pretende deixar a secular posição de fornecedor de matérias-primas sem valor agregado, para migrar para a posição de um país pensante e que possui uma economia que agrega valor ao que produz.

O aspecto perigoso desse projeto de lei é ele ser lido ao pé da letra. Evidentemente, não precisamos de duas horas mensais obrigatórias de cinema brasileiro. Precisamos, para ontem, de um projeto que habilite educadores a refletir com seus alunos através do cinema brasileiro sobre quem somos e quem desejamos ser.

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*Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi coordenam o projeto Tela Brasil de educação audiovisual e são autores dos filmes Bicho de sete cabeças, Chega de saudade, As melhores coisas do mundo (este inspirado na série Mano: Cidadão-Aprendiz), entre outros.

Um Comentário

  1. Lucas de Oliveira disse:
    Em 10/09/2012 às 19:17

    O texto está muito bom. Acho apenas que faltou ressaltar com todas as letras que o modelo de educação falido que temos no Brasil se teve também ao fato de evitarem as pessoas tenham mais acesso ao conhecimento – não falo apenas do conhecimento teórico, aquele aprendido (ou decorado) com a leitura de bibliografias padrões, mas sim das inúmeras verdades, cujas quais não temos acesso, mas que poderiam servir de base para estudantes de ensino básico começaram a já pensar, por exemplo, na escolha de sua profissão, de seus governantes e, se me permita a ilusão, também da grade de programação da nossa televisão brasileira. Com pessoas pensantes, acredito que as coisas ficariam muito mais claras e o país estaria, finalmente, propício ao progresso.

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