Não é raro as mães serem taxadas de “chatas” na escola por quererem acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhos pequenos. No entanto, esta aproximação pode ser um poderoso elo de aprendizagem.
Por Sonia Casarin*

“O que será agora?!”. Essa é uma reação comum dos professores quando a mãe de um aluno pede para conversar. Para muitos professores, conversar com os pais de seus alunos causa um desconforto, é uma perturbação.
Mães de crianças se preocupam com o bem-estar de seus filhos e qualquer pequeno acidente, arranhão, hematoma, caderno em branco depois da aula, falta da lição de casa ou mesmo o excesso de lição de casa podem ser motivo para “conversar com a professora”. A mãe se torna a chata que implica com tudo. “Melhor não falar com ela”, diz a professora, como se isto fosse possível. A situação piora quando são mães de “alunos especiais”, que geralmente são ansiosas, muito ansiosas, e querem conversar o tempo todo.
Esses professores têm dificuldade em trabalhar com a diversidade dos alunos, pois estão acostumados a utilizar procedimentos únicos para todos: conteúdos, atividades, estratégias, tempo, avaliação – tudo igual para todos. Entretanto, como sabemos, cada criança é única e precisa ser conhecida em sua singularidade. Alunos com necessidades educacionais especiais, além de sua singularidade, apresentam também a especificidade de sua condição.
Parece uma tarefa sobre-humana conhecer a singularidade de cada aluno, assim como parece sobre-humana a tarefa de conhecer todas as necessidades especiais. Para ao menos tentar realizá-las, os professores precisam cada vez mais ampliar conhecimentos e aprimorar habilidades pedagógicas. E, neste processo, infelizmente é comum um recurso muito valioso acabar desprezado: a família.
A família, principalmente a mãe, conhece a criança, é depositária da história de vida dela e interpreta sua modalidade de aprendizagem – não a modalidade intelectual, mas a aprendizagem que faz parte da vida e está presente quando a criança aprende a andar, falar, brincar, manusear objetos, relacionar-se com as pessoas. Conhecedora e participante desses momentos de aprendizagem, a família pode ser uma grande parceira da instituição de ensino ao estabelecer a continuidade entre a aprendizagem informal (da vida) e a aprendizagem formal (da escola).
Penso que a “chatice” da mãe toma essa forma devido ao distanciamento existente entre a família e a escola. Acredito, porém, que a participação dos pais seja essencial na escolarização da criança, pois a articulação entre esses dois contextos garante, por exemplo, a consistência na comunicação e na transmissão de valores.
A participação da família na escola não deve ser pontual; precisa, antes, fazer parte do projeto político pedagógico da escola e aproveitar os espaços formais existentes para essa participação (como os conselhos escolares) e as oportunidades que surgem na rotina escolar do educando. Se a parceria se estabelece, uma relação de confiança pode ser construída e os pequenos “arranhões”, concretos ou simbólicos, serão compreendidos como parte do desenvolvimento e da vida da criança, não uma ameaça ao seu bem-estar.
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*Sonia Casarin trabalha com inclusão desde quando “inclusão” ainda não existia no vocabulário escolar. É doutora em Psicologia pela PUC-SP, autora de Talento e deficiência: como incluir alunos com diferentes tipos de inteligência (Editora Ática, 2011), docente da pós-graduação em Educação Inclusiva do Instituto Superior de Educação Vera Cruz e responsável pelo SOS Down.