Quem inclui também é incluído

Muitos pais de crianças “perfeitas” evitam escolas inclusivas e a convivência de seus filhos com colegas com deficiências. Neste artigo, a psicóloga Sonia Casarin contextualiza e combate preconceitos do gênero.

Por Sonia Casarin*

Precisamos de leis inclusivas. Precisamos de cursos de educação inclusiva para aprender a fazer a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais. A razão de essas demandas existirem só pode ser o fato de não sabermos fazer inclusão.

Não sabemos? Não, porque não vivemos em um mundo inclusivo. A sociedade não é inclusiva: quantos edifícios e centros comerciais têm rampas de acesso para pessoas com dificuldades motoras? Quantos endereços da internet possuem versões adaptadas a deficientes visuais? Quantas pessoas que escapam ao padrão da “normalidade” ocupam vagas de trabalho que não são as estipuladas por leis de cotas?

A situação não é muito diferente nas escolas. Embora venha crescendo, a inclusão escolar ainda se efetiva em ritmo muito aquém do ideal, como indicam os dados do Censo Escolar 2011 divulgados recentemente. Acredito, contudo, que o movimento inclusivo que vem marcando este início de século poderá formar novas consciências e mudar esse estado de coisas.

Afinal, a inclusão ocorre em vias de mão dupla. Ela favorece o indivíduo com necessidades educacionais especiais, que, quando bem amparado, recebe as mesmas oportunidades de desenvolvimento que qualquer criança ou jovem, e favorece ainda os alunos do ensino regular, que aprendem desde o início da vida a conviver com a diversidade, esteja ela expressa em colegas com deficiências ou com altas habilidades.

Nesse jogo de espelhos, quem é incluído também inclui, pois possibilita aos demais novos horizontes sobre o que vem a ser o convívio social. Concretizado no dia a dia dos relacionamentos, esse aprendizado constrói vínculos entre pessoas que, antes separadas pelas barreiras do “diferente”, da “abstração” ou da “aberração”, tornam-se amigas.

Esse é um dos maiores benefícios proporcionados pela inclusão escolar, muitas vezes subjugado por pais de crianças sem deficiência. Há muita resistência deles diante da inclusão pelo receio de que a escola de seus filhos “perfeitos” se torne fraca ao trabalhar no ritmo de crianças com deficiência. Trata-se de um equívoco. A escola inclusiva não “segura” nenhum aluno, ao contrário, procura atender ao ritmo próprio de cada um. Embora a inclusão tenha como foco as necessidades educacionais especiais, seu princípio de respeito à diversidade beneficia todos os alunos.

Os ganhos pessoais são imensuráveis. As crianças convivem desde sempre com as diferenças humanas (sem precisar estudá-las, como fazemos nós, os adultos de hoje) e essa convivência revela as particularidades de cada um. Para as crianças, essas particularidades não têm nome, não são rotuladas, simplesmente acontecem.

A educação inclusiva, por meio da escola inclusiva, pode construir a sociedade inclusiva, uma sociedade em que todos têm seu lugar respeitado sem precisar lutar por ele. Costumo dizer que onde há inclusão não há competição. Na sociedade inclusiva há lugar para a solidariedade, para a cooperação e a compreensão, valores que as crianças das escolas inclusivas podem aprender na prática, pela convivência com as fragilidades e com as forças humanas, presentes na vida delas desde sempre.

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*Sonia Casarin trabalha com inclusão desde quando “inclusão” ainda não existia no vocabulário escolar. É doutora em Psicologia pela PUC-SP, autora de Talento e deficiência: como incluir alunos com diferentes tipos de inteligência (Editora Ática, 2011), docente da pós-graduação em Educação Inclusiva do Instituto Superior de Educação Vera Cruz e responsável pelo SOS Down.

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