Soluções rápidas para
problemas complexos

A instantaneidade da vida contemporânea mudou interesses, aptidões e hábitos das crianças e dos jovens. Do novo estilo de vida surgiram novos perfis de alunos. Neste artigo a psicóloga Sonia Casarin argumenta que, ao invés de interpretar essas mudanças, muitas famílias e escolas têm delegado a medicamentos a tarefa de corrigir a falta de concentração, a ansiedade e a inquietação dos alunos. Você concorda? Deixe seu comentário a seguir.

Soluções rápidas para problemas complexos. Artigo de Sonia Casarin.

Por Sonia Casarin*

Vivemos na época do imediatismo. Hoje, da informação à alimentação, tudo é processado muito rapidamente: podemos testemunhar um fato ocorrido do outro lado do mundo em tempo real, da mesma forma que uma refeição fica pronta em poucos minutos ao descongelar no micro-ondas ou ser entregue no balcão do fast food. Assim, os desejos são facilmente satisfeitos.

Como alunos e professores também fazem parte desse mundo rápido e imediatista, as vicissitudes do processo de ensino e aprendizagem tornam-se insuportáveis. Os alunos dominam o mundo virtual e nele transitam com facilidade, enquanto os professores tateiam com dificuldade caminhos desse mundo que muitas vezes lhes parece estranho e impalpável.

Muitos professores ainda preferem dar aulas colocando o conteúdo na lousa para os alunos copiarem. Habituados a obter tudo com um clique, nesse tipo de aula movida a lousa, caneta e papel os jovens logo se sentem entediados. Os professores acabam frustrados com a reação da turma de “ansiosos” e o desencontro se instala.

Os alunos ansiosos não param, os insatisfeitos ficam rebeldes, outros se tornam depressivos. O desconforto se expressa pelo comportamento e, como tudo deve ser resolvido e obtido rapidamente, os processos subjacentes a essas reações não podem ser vistos nem vividos. A solução deve ser rápida, imediata – e nada mais rápido do que o efeito de uma medicação. Fazemos com as crianças e os adolescentes o que fazemos com nós mesmos: quando estamos tensos, por exemplo, não relaxamos, tomamos um analgésico. É mais fácil. Relaxar dá mais trabalho…

A situação que vemos hoje na educação é um reflexo do imediatismo da vida atual. Vemos os alunos começar a tomar cloridato de metilfenidato (conhecido nas farmácias em fórmulas como da Ritalina e similares) com muita facilidade. Os professores e os pais falam sobre o assunto com muita familiaridade, pois basta a criança não se concentrar para fazer a lição de casa para ouvirmos de especialistas que a Ritalina pode ajudar. Não é à toa que as vendas de medicamentos do gênero aumentaram 1.616% apenas entre 2000 e 2008 (dado do IDUM – Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos). Se o pequeno não fica sentado para assistir à aula, ele precisa de…

É claro que não nego a existência de transtornos como o TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, mas o que questiono aqui é o fato de muitas crianças serem rotineiramente medicadas por “sintomas” ou comportamentos que são reações a situações que elas estão vivendo: as aulas são cansativas e pouco estimulantes, quando não difíceis. “Não entendo o que a professora fala”, ouço de alunos.

As crianças não têm repertório para conversar a respeito e mostram sua insatisfação pelo comportamento. Quando depositamos no médico a resolução desses problemas de comportamento, confiamos a causa da situação a um só lado – do aluno. Os demais atores ficam isentos. Não olhamos para todos os lados da situação: o aluno, o professor, a escola, a família. Acabamos, assim, por impedir que a criança aprenda a vivenciar as diversas situações da vida.

Queremos impedir emoções e reações negativas, muitas vezes legítimas, mas impedimos também que as vivências positivas sejam experienciadas em todo seu colorido. Desbotamos as emoções e ficamos confortáveis, enquanto aparentemente tudo volta ao “normal”: a criança fica bem comportada, o professor pode dar a sua aula monótona sem perturbação. O mundo fica cinza. Não temos que enfrentar situações negativas e não podemos viver a beleza do desenvolvimento humano em toda sua plenitude.

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*Sonia Casarin trabalha com inclusão desde quando “inclusão” ainda não existia no vocabulário escolar. É doutora em Psicologia pela PUC-SP, autora de Talento e deficiência: como incluir alunos com diferentes tipos de inteligência (Editora Ática, 2011), docente da pós-graduação em Educação Inclusiva do Instituto Superior de Educação Vera Cruz e responsável pelo SOS Down.

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