“Muitas vezes é mais importante
a viagem do que o lugar onde
se quer chegar”

Fabio Colombini. Por Sofia Colombini


O fotógrafo paulistano Fabio Colombini, de 46 anos, formou-se em Arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP) e cursou Publicidade e Propaganda na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA). Autodidata em fotografia, profissionalizou-se há 24 anos, realizando produções especializadas em natureza e registrando a rica biodiversidade da fauna e flora brasileiras. Possui um amplo acervo fotográfico em seu próprio banco de imagens, sendo representado nos EUA pela agência Animals Animals.

Em seu trabalho, destaca-se o forte caráter gráfico, conciliando arte e ciência, com grande atuação na educação ambiental. Suas fotos ilustram mais de três mil livros, entre artísticos, institucionais, didáticos e paradidáticos, 121 calendários de grandes empresas e inúmeros guias e revistas nacionais e estrangeiras, tendo participado de 48 exposições fotográficas.

Entre os prêmios recebidos, destacam-se o da Organização dos Estados Americanos (OEA), o da Fundação SOS Mata Atlântica, o World Calendar Awards,  em Illinois, EUA, com o calendário Amazônias e Mata Atlântica, e o do National Geographic Channel, no Concurso Momentos Incríveis.

Suas imagens compõem o acervo do Instituto Moreira Salles (IMS) e do Instituto Itaú Cultural. Fábio Colombini integra o Conselho Superior Consultivo da AFNATURA (Associação de Fotógrafos de Natureza) e participa de ONGs ambientais.

Macaco-prego (Cebus apella). Por Fabio Colombini

 

*

Em seu perfil no Flickr você se apresenta como “fotógrafo de natureza”. Quando surgiu o interesse pelo tema?
Em criança. Recordo de episódios com cinco ou seis anos de idade em que me deslumbrava com as cores das borboletas. Digo sempre que primeiro nasceu o interesse pela natureza, depois pela fotografia, esta como um instrumento para mostrar às pessoas a beleza que eu encontrava em minhas andanças.

E de onde vem esse interesse?
Devo ter herdado a vocação para a viagem, as artes e a fotografia de meu avô, um engenheiro que pintava capas de discos e fotografava a natureza do interior do Paraná. Dos quinze aos 23 anos fui fotógrafo amador, enquanto estudante do colegial e depois na faculdade de Arquitetura, desde o início com predileção pelos temas da natureza.

Qual o fluxo do seu trabalho como fotógrafo de natureza?
Há duas fases distintas: a captação das imagens e o trabalho de agência. O trabalho propriamente de fotógrafo acontece durante as viagens, em que há uma dedicação total ao trabalho de campo, chova ou faça sol, pois sempre há oportunidades de fotografia. Essas viagens normalmente ocorrem em áreas de proteção ambiental, como parques nacionais, estaduais ou reservas ecológicas particulares. São planejadas com antecedência para que sejam realizadas na época mais adequada, de acordo com os ritmos da natureza. Busca-se imagens específicas e ao mesmo tempo abre-se para o inesperado.

Conte um caso em que o inesperado se apresentou…
Nesse início de ano fui ao Espírito Santo tentar fotografar o nascimento da tartaruga-gigante ou tartaruga-de-couro. É uma espécie muito rara, pois somente quatro indivíduos vêm ao Brasil pôr ovos, especificamente em certas praias daquele estado. Ao mesmo tempo em que esperava pelo nascimento provável, enfocava a natureza local, a vegetação de restinga, as flores de cáctus, a plantação de cacau, a extração de petróleo, enfim, outros assuntos que se apresentavam como belos ou importantes.

Barco pesqueiro e pescadores, Praia do Forte (BA), 2005. Por Fabio Colombini

E como é a segunda fase, o trabalho na agência?
Na segunda fase, que é a mais longa, deve-se tratar as imagens obtidas, que é um processo de selecionar, editar, corrigir defeitos, identificar, classificar, armazenar e enviar para a formatação e indexação a fim de entrar no site de busca de imagens. Nesse processo sou auxiliado por outras pessoas, pois o volume de informações e imagens é grande. Então, na fase em que não se fotografa, o estúdio do fotógrafo funciona como um escritório normal, com elaboração de orçamentos, envio de imagens, organização, contabilidade, planejamento, contratos, etc. Desde o início da minha carreira sempre tive a ajuda da minha esposa para manter a estrutura de agência de fotos funcionando, especialmente nas minhas ausências para a produção de imagens.

Que equipamento é ideal para um trabalho tão específico?
Existem algumas lentes que são importantes, como as grandes teleobjetivas, que conseguem aproximar os animais que estão longe, já que dificilmente é possível chegar perto de animais selvagens. Há também a lente macro, específica para fotografar pequenos seres, como insetos, aranhas, anfíbios, flores. É necessário uma boa grande angular, para captar paisagens de grandes dimensões. Usam-se acessórios como tripé, monopé, flashes, difusores de luz, câmeras subaquáticas ou caixas para mergulho, entre outros. Enfim, são muitos e pesados equipamentos (uma teleobjetiva pode pesar sete quilos) que o fotógrafo deve carregar em sua mochila e com os quais precisa caminhar bastante para encontrar seus objetivos.

Muitas de suas fotos são usadas em livros didáticos. Como aconteceu essa aproximação?
Começou em 1990, quando, após publicar uma matéria sobre borboletas numa revista, a pesquisadora de imagens de uma editora me procurou, pois precisava exatamente da sequência de metamorfose e nascimento para um livro de biologia. Fui então, ao longo desses anos, aprendendo e entendendo quais as necessidades de imagens para livros didáticos, o que norteou frequentemente minha produção fotográfica. Hoje tenho imagens publicadas em cerca de três mil títulos diferentes de didáticos, de todas as disciplinas.

Qual a sensação ao ver suas fotos nesse tipo de publicação?
É uma sensação muito boa saber que, por meio dos livros didáticos, minhas fotos se espalham pelo Brasil inteiro, e muitas vezes serão as únicas referências visuais que as crianças terão sobre a natureza. O fato de o livro didático ser tão abrangente democratiza o acesso à fotografia e ao conhecimento, o que me orgulha e ao mesmo tempo me obriga a fazer um trabalho competente e de informação precisa. Com grande alegria, encontrei livros didáticos com fotos minhas em pequenas escolas de locais extremamente remotos do Amazonas.

Penas de arara-vermelha (Ara chloroptera).
Por Fabio Colombini

Quais as virtudes de um bom fotógrafo?
Acredito que um conjunto de fatores que sai do dom e passa pelo suor. Não basta ter talento, deve-se acrescentar responsabilidade, dedicação aos estudos, interesse nos assuntos que fotografa, constante atualização tecnológica, atendimento rápido ao cliente, organização da produção fotográfica, confiabilidade na identificação das fotos, investimento no próprio trabalho, constante busca de novos mercados, humildade e ética na atuação profissional, atenção às exigências do mercado. Naturalmente o amor pelo que se faz é o fator que incentiva o esforço de cumprir tantas exigências.

Em quem você se inspirou no início da carreira? E hoje, em quem se inspira?
No início me inspirei muito no fotógrafo brasileiro Haroldo Palo Jr., que desenvolvia um trabalho para a Kodak vivendo no Pantanal por quase um ano. Achei uma profissão fascinante, principalmente depois de ouvir uma palestra sua no cursinho onde estudava. Ao longo de todos esses anos, muitas fotos e muitos fotógrafos me inspiraram, como Eliot Porter, Stephen Dalton, Frans Lanting. Com a internet, frequentemente encontro fotógrafos desconhecidos de diversas partes do mundo que desenvolvem trabalhos belíssimos, e toda imagem bela me inspira e estimula a fotografar.

Que análise faz da passagem da fotografia analógica para a digital?

Na fase de transição, ainda questionava um pouco, já que a qualidade do digital não alcançava a do analógico. Mas com o passar dos anos e o aperfeiçoamento da tecnologia, praticamente esqueci do analógico. O processo digital é muito mais eficiente, ajudando a desenvolver a qualidade fotográfica, já que proporciona resultados e análise imediata, grande produção de imagens sem aumento de custos, recursos de captação, manipulação e aperfeiçoamento. O fluxo de trabalho com as editoras tornou-se extremamente rápido e foi facilitado enormemente, pois não é necessário mais o deslocamento físico de cromos, evitando riscos de danos e perdas, além do tempo gasto no trânsito das grandes cidades. Por outro lado, exige-se uma atuação permanente na frente de um não saudável computador, e distanciou-se do contato com o cliente, já que tudo é feito on-line. Isso empobrece os relacionamentos humanos.

Qual a realidade do profissional fotógrafo hoje, no Brasil?
Acredito que ainda estejam sendo sentidos os efeitos da revolução digital, pois o profissional de hoje não é o mesmo da era pré-digital. Muitos setores da fotografia perderam espaço, e o que antes era uma técnica só acessível a poucos, hoje tornou-se extremamente popular, em que até crianças conseguem produzir imagens boas. Isso exigiu um avanço e uma especialização dos profissionais para que mantivessem seu trabalho valorizado e requerido, dentro de uma avalanche de imagens vindas de toda parte. Por outro lado, tem se valorizado muito a fotografia autoral como expressão artística, e as galerias, os arquitetos e o mercado de decoração a tem consumido cada vez mais. Acredito que sempre haverá espaço para a criatividade e profissionalismo. Não fosse assim, não teria incentivado minha filha a fazer faculdade de fotografia. O fotógrafo brasileiro é muito talentoso, e a carência de informação e formação tem gradualmente cedido espaço a boas publicações, além de cursos técnicos e superiores.

Existe algum trabalho que o tenha gratificado mais do que os outros, ou algum que tenha gostado mais de fazer?
Fotografar a natureza é extremamente gratificante, pois ao mesmo tempo que pode trazer inúmeras frustrações em termos de fotos perdidas, condições atmosféricas negativas e até mesmo não encontrar o que se almeja fotografar, traz inúmeras surpresas. Por mais que eu fotografe, sempre encontro animais diferentes, situações de luz inesperadas, pois não canso de olhar e me admirar com a natureza. Enfrentando calor, frio, picadas de insetos, caminhadas difíceis, mochilas pesadas, tudo isso se dissolve ante a sensação gratificante de estar na natureza e conseguir captar sua beleza.

Você conseguiu realizar o que idealizava no início da carreira?
No início da carreira há uma série de dúvidas, até mesmo se iria conseguir sobreviver como fotógrafo, mais ainda como o específico fotógrafo de natureza. Então acho que nunca fiz planos tão audaciosos, e fui vivendo o momento, buscando pequenos objetivos, valorizando cada progresso, pedindo a condução de Deus pelo futuro insondável. Como se diz, muitas vezes é mais importante a viagem do que o lugar onde se quer chegar, e nessa viagem tenho procurado superar as constantes dificuldades e me alegrar com as frequentes realizações.

Quais são seus projetos futuros?
Ainda há muitos lugares que gostaria de conhecer, como o Monte Roraima, as cavernas do Peruaçu, as savanas da África. Há muitas fotos que gostaria de fazer, como insetos em voo, a harpia no ninho, o uirapuru. Além de projetos em fine art [fotografia mais conceitual ou artística] e ensaios que conseguissem retratar a espiritualidade dos santos.

Um Comentário

  1. Cristiane Marques disse:
    Em 20/04/2011 às 23:29

    Adoro o trabalho do Fabio Colombini… é admirável sua competência e dedicação, seu profissionalismo e sua humildade. Não há espaço para o estrelismo…..Fabio é daqueles que além de deixar marcas visuais, registros maravilhososos, deixa marca de amizade no coração!!!

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

  • Navegue por categoria

  • Colunistas

  • Tags

  • Parceiros pela educação