A Educação Física por um novo olhar

Quem acompanha este blog sabe que um dos nossos compromissos aqui é incentivar o uso pedagógico das tecnologias de informação e comunicação – recursos que, se bem explorados, aproximam educadores e alunos e fortalecem os processos de ensino e aprendizagem. Por isso, hoje, Dia do Profissional de Educação Física, decidimos trazer a vocês a experiência de Marcelo Luiz de Souza, professor carioca que combate o excesso de peso e a obesidade juvenil estimulando seus alunos a construírem posições críticas sobre alimentação e qualidade de vida.

Marcelo Souza e os alunos do Programa de Saúde na Escola

A partir de planilhas, tabelas, blog e redes sociais, ele os transforma em “agentes” de sua causa e os orienta na construção e no compartilhamento de informações: “O último relatório Saúde Brasil aponta que derrames, doenças isquêmicas do coração e diabetes são as três principais causas de mortes no país. A escola pode ser um meio para desarmarmos esta bomba”, diz o professor. A seguir, a entrevista com Marcelo Souza:

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A educação física normalmente é vista por professores e alunos como um momento de lazer, da recreação que preenche o programa escolar. Como uma visão diferenciada da educação física se firmou em sua carreira?
Fiz curso técnico em educação física e logo ingressei na faculdade. Durante a graduação, percebi que a educação física escolar era um campo bastante fértil, então resolvi me pós-graduar na área. O ano era 1986, estávamos em plena reabertura democrática e os profissionais do setor passavam por uma crise de identidade: muitos estudos foram produzidos e começou-se a dar maior importância aos exercícios em academias, aos testes físicos e às novas modalidades esportivas.

Decidi que meu enfoque seria a inserção social de grupos distanciados da prática de educação física e, neste contexto, comecei a produzir alguns estudos que apontavam a aplicabilidade da pedagogia progressista libertadora (Paulo Freire) inserida no contexto da educação física escolar. Procurei estudar a importância social da educação física na vida das pessoas e entendê-la como instrumento emancipatório e libertador, a partir da prática do movimento humano no contexto dos alunos. Era um contraponto à “domesticação” dos corpos, visão higienista e militarista da educação física que perdurou durante muito tempo.

Muitos desses princípios fazem parte do Programa de Saúde na Escola, que acaba de levar o 3º lugar no Prêmio Educadores Inovadores (da Microsoft Brasil) e foi   semifinalista do Prêmio Internacional EducaRede (realizado pela Fundação  Telefonica). Como o projeto surgiu?
A partir de constatações! Para mim, sempre foi alarmante receber dados como os do último relatório Saúde Brasil [aqui, em PDF], que aponta que as doenças cerebrovasculares (derrames), isquêmicas do coração e diabetes são as três principais causas de mortes no país. Estes males são causados principalmente pelo sedentarismo, pela alimentação incorreta e pelo tabagismo, portanto temos um quadro absolutamente modificável, que depende apenas do nível de consciência de cada um.

Decidi, então, encarar a escola e os alunos como um meio para a sociedade desarmar essa bomba. Em 2010 , levei essa preocupação à instituição onde trabalho, a Escola de Educação Básica e Profissional Fundação Bradesco, no Rio de Janeiro. Lá, criei um modelo que ajuda os alunos a desenvolverem competências e habilidades que lhes possibilitam, com o apoio dos recursos da tecnologia de informação e comunicação, compreenderem o mundo contemporâneo e a necessidade de rompimento com o ciclo “sedentarismo – excesso de peso – obesidade”.

E como isto se realiza na prática?
O Programa de Saúde na Escola possui quatro etapas: a primeira, de avaliação inicial, envolve a sensibilização dos alunos para a “causa” da saúde pública. É o momento em que calculamos o IMC (índice de massa corporal)  e a relação cintura-quadril  deles. Aplicamos, também, um questionário sobre a qualidade de vida de suas famílias.

O segundo estágio é aquele em que “botamos a mão na massa”: passamos a calcular o consumo calórico das atividades físicas realizadas na escola, medimos a frequência cardíaca dos alunos, discutimos mitos e verdades sobre os exercícios físicos, conversamos com eles sobre alimentação e transtornos alimentares.

Na terceira etapa, de socialização do conhecimento elaborado, promovemos palestras abertas a pais e interessados em geral. Já a última fase é de avaliação somativa, que pondera os ganhos subjetivos e objetivos do projeto – neste quesito, vamos muito bem: enquanto 23,2% dos alunos do 9º ano da rede escolar do Rio de Janeiro apresentam excesso de peso e 8,9% estão obesos, na Fundação esses números caem para 13 e 5%.

O projeto estimula o protagonismo dos alunos ao propor que eles divulguem aos pais e amigos o conhecimento construído a respeito da saúde e da cultura corporal. Como funciona este processo de sensibilização dos jovens? Qual o potencial deles como agentes disseminadores?
Quando usadas com fins pedagógicos, as redes sociais são uma ferramenta com poder transformador incrível. Tornam-se capazes de estimular a construção de conhecimentos e de formar hábitos, comportamentos e atitudes. A base do Programa de Saúde na Escola foram os 315 alunos do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, ou seja: adolescentes extremamente ativos, que apresentaram um potencial disseminador fantástico – através do blog do projeto e do Facebook, eles conseguiram envolver agentes pedagógicos da própria escola e de fora dela, reunindo pais, amigos, familiares e a comunidade escolar.

Creio que a chave para essa mobilização tenha sido o trabalho em equipe. Minha sugestão para propostas semelhantes é que o professor crie um grupo de trabalho, determine regras de participação de acordo com os interesses coletivos e exerça o trabalho de “formação de conceitos” em sala de aula. Desta forma, ele capacitará os alunos para a produção e a participação no grupo de trabalho.

No caso do Saúde na Escola, os alunos compreenderam a importância de mantermos o foco e compartilharmos, comentarmos e “curtirmos” em nosso espaço do Facebook apenas conteúdos com estrita relação com o tema estabelecido. O blog foi outro valioso recurso pedagógico ao contribuir para a sistematização dos conteúdos trabalhados e para a ampliação do acesso em rede.

O culto ao corpo, o doping, as drogas e o consumo excessivo de álcool são temas que constantemente ganham destaque na mídia. Muitas vezes, porém, o professor se sente despreparado (ou pouco à vontade) para discuti-los com os alunos. Como educar os jovens atentando a questões como essas?
A conscientização é, sempre, o canal mais importante. Vamos tomar o “corpo perfeito” como exemplo. Fala-se muito sobre ele, mas, afinal, que tipo de corpo é esse? Muito provavelmente, um corpo que resulta de um certo prisma histórico-social-cultural pelo qual observamos o mundo.

É importante que estimulemos os jovens a criarem sua consciência corporal: entenderem que cada sujeito carrega características biotipológicas próprias e que cada um possui força, resistência, ritmo, agilidade, velocidade, equilíbrio e coordenação específicas, habilidades estas construídas a partir da regularidade de atividades físicas, esportivas e de lazer.

Quando almejamos características que escapam às nossas possibilidades biológicas, surgem as “neuroses” e, consequentemente, as doenças. Na ânsia de conquistar o corpo idealizado, e observando que as atividades físicas e as dietas não trazem o efeito esperado, as pessoas têm buscado cada vez mais as cirurgias plásticas, dietas milagrosas e práticas absurdas para alcançar rapidamente o “efeito” esperado.

É tarefa pedagógica da educação física escolar discutir estas questões dentro da escola e alertar para este problema. O corpo perfeito é, por fim, aquele que estiver em sintonia com as possibilidades reais de serem alcançadas pelo indivíduo. Corpo perfeito é o corpo saudável e feliz!

Um Trackback

  1. Por Facebook e Twitter para educadores em 06/01/2012 às 20:35

    [...] Aqui no Blog das Editoras Ática e Scipione, temos constantemente insistido que sim, apontando exemplos e possibilidades. Desta vez, retomamos o assunto para indicar dois guias, lançados no fim do ano [...]

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