Ouvindo o coração das histórias

Um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, João Carrascoza fala ao Blog das Editoras Ática e Scipione sobre A vida naquela hora, lançamento em que reúne contos delicados que tratam de experiências, descobertas e aprendizados do ser humano.

O escritor João Anzanello Carrascoza trilha um caminho próprio na literatura brasileira contemporânea. Sua obra se destaca pelo apuro estético que se oculta nas epifanias diárias das situações que narra, sem que para isso lance mão de maneirismos radicais ou rompantes pretensamente transgressores de linguagem.

Sua busca obsessiva pela palavra mais adequada ou pelo melhor ritmo da frase resulta numa prosa que flui naturalmente sem deixar entrever seu processo de criação. Ele “ouve o coração das história”, como afirma em uma das respostas à entrevista que você confere a seguir.

Vencedor de alguns dos principais prêmios literários no país e no exterior, entre os quais se destacam o Jabuti e o Prêmio Internacional Guimarães Rosa – Radio France Internationale. Seu conto “Sinal dos tempos” foi escolhido para representar o Brasil, juntamente com textos de Moacyr Scliar e Marina Colasanti, na antologia Cuentos Breves Latinoamericanos (Coedición Latinoamericana), publicada em dez países de língua espanhola, sob o patrocínio da Unesco.

Além de escritor, João Carrascoza, que já publicou vários livros pelas Editoras Ática e Scipione, é publicitário e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Sua mais recente obra é a coletânea de contos A vida naquela hora, que será lançada pela Scipione em 9/8, em São Paulo. Em meio a suas múltiplas atividades, Carrascoza concedeu a seguinte entrevista a este blog:

*

João, em breve chega às livrarias um novo livro seu, o volume de contos A vida naquela hora. Para começar a entrevista, poderia falar um pouco sobre esta obra?
A vida naquela hora é uma coletânea de histórias que tem como elemento central, expresso no título, o tempo presente na memória. As narrativas, fincadas nas lembranças dos personagens, presentificam momentos marcantes, que os transformaram. A consciência de que a vida é inevitável, tanto quanto seu fim, leva-os a buscar seu sentido no instante em que a estavam fruindo.

Embora você tenha escrito também romances, sua obra parece mais voltada para o conto. É nesse gênero que se sente mais à vontade?
Sim, tenho uma predileção pelo conto, que exige concisão e intensidade. O conto traz o mundo inteiro num detalhe. É como um raio de sol, e basta um raio de sol para inaugurar a manhã.

Em que momento sentiu que a literatura seria um de seus caminhos, ou o seu caminho?
Desde que ouvi a primeira história, senti-me contagiado pelo universo ficcional. E, igualmente, pelo prazer, ou pela dor, de contagiar também outras pessoas, contando histórias a elas.

Em geral, como é seu processo de criação? Possui algum ritual ou mania na hora de criar?
Anoto impressões e ideias depois de sentir alguma emoção estética. Elas são como sementes. Às vezes, brotam, e aí cuido delas, transferindo-as para a vida dos personagens. Mas, às vezes, não vingam, e, então, eu as abandono. Meu ritual na hora de escrever é simples: sento e fico em silêncio, para pegar o tom da história, ouvir o seu coração.

Julio Cortázar costumava dizer que o conto é como uma luta de boxe em que você tem de vencer por nocaute no primeiro assalto. Você também vê assim?
Sim. É preciso que o conto contagie rapidamente o leitor, ou você o perde. No entanto, vale lembrar, um nocaute pode se dar por meio de um único golpe, fulminante, ou por uma sequência de golpes aparentemente fracos.

Percebe-se em seu texto um trabalho apurado com as frases e as palavras. De onde vem esse esmero?
Procuro a música que há na nascente da história. Aprecio escutá-la e, depois, empenho-me em levá-la adiante, como o curso de um rio.

Que autores o influenciaram como escritor? E que autores lê atualmente?
Na obra de muitos poetas (Drummond, Bandeira, João Cabral de Melo Neto) e prosadores (Guimarães Rosa, Faulkner, Saramago), encontrei momentos de encantamento. Atualmente, leio e releio Machado de Assis, Raymond Carver, Coetzee, entre outros.

O que o prêmio Guimarães Rosa – Radio France Internationale trouxe para a sua vida?
Honra, no primeiro momento. Humildade, daí em diante.

Gostaria que falasse um pouco da experiência como escritor-residente do Programa Ledig House – International Writer’s Colony, realizada nos Estados Unidos a convite da Omi International Arts Center.
Essa foi a primeira residência que fiz. Depois, estive no Château de Lavigny, na Suíça, e, em janeiro deste ano, na Sangam House, na Índia. É uma experiência multicultural: você convive com escritores de várias nacionalidades, que transitam pelos mais diversos gêneros literários. Além dessa convivência, há encontros com editores, leituras públicas, debates sobre o trabalho de cada escritor. O mais relevante, contudo, é a tranquilidade do lugar e o tempo intensivo que você tem para se dedicar ao seu projeto. Quanto mais silêncio, mais fundo a gente vai dentro de nós.

Em sua obra, existe algum livro que o tenha gratificado mais ou pelo qual você tenha um carinho mais especial do que pelos outros?
O volume do silêncio, antologia que reúne contos extraídos de meus livros anteriores.

O seu ofício de professor e redator de propaganda influencia na sua literatura?
Sim, na hora em que escrevemos, somos uma só água.

O que pensa a respeito do advento do livro digital?
A literatura, como uma camaleão, se adapta a qualquer suporte: seja a boca, o papel, o Kindle.

Que análise faz do cenário atual da literatura juvenil brasileira?
Não sou crítico literário, mas vejo que, tanto quanto a literatura brasileira para todas as idades, essa literatura é cada dia mais rica, colorida, plural.

Você tem contato com os leitores?
Sim. Quando posso, vou a escolas, a feiras, a bate-papos. Respondo a cartas e e-mails. Os leitores me ensinam muito sobre mim e sobre o que escrevi. Inspiram-me e me motivam.

*

:: Pingue-pongue com João Anzanello Carrascoza

Uma lembrança: A primeira história.

Uma palavra: Silêncio.

Uma frase: “Quem se julga importante não merece importância” (Tao).

Uma cidade: Santiago de Compostela.

Um personagem: Miguilim, personagem de Guimarães Rosa.

Uma canção:A vida é um moinho”, de Cartola.

Um livro: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

Um filme: Asas do desejo, de Wim Wenders.

Uma pessoa: Essa, que só eu sei quem é.

Uma esperança: A esperança.

Um Comentário

  1. Lilia disse:
    Em 03/08/2011 às 12:23

    João é maravilhoso…Seu texto toca profundamente a minha alma.Me identifico….

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