Escrita à mão, papel almaço…

A escrita foi inventada para que possamos comunicar o nosso pensamento aos outros. Assim, se não sabemos pensar de forma clara, precisa, coerente e concatenada, dificilmente conseguiremos fazer uma boa redação – independentemente da tecnologia empregada.

Imaginemos uma escola particular de qualidade razoável em uma grande cidade brasileira nos dias de hoje. Digamos que ela se localize em São Paulo, num bairro tradicional que está tentando conseguir um upgrade para o século 21, e seus alunos pertençam às classes A e B do bairro. Ela usa sistema de ensino de grife. Os alunos, pelo menos os da quinta série em diante, carregam smartphones (fones espertos?) de última geração, têm notebooks (cadernos eletrônicos?), usam Facebook e Messenger o tempo todo etc. E se vestem, digamos, a rigor: GAP, Nike etc.

Imaginemos que nessa escola, numa sala de aula da oitava série, uma professora peça aos alunos que façam uma redação sobre tema de sua escolha e a entreguem numa data combinada. Mas, especifica a professora, a tarefa tem de vir escrita à mão em folha de papel almaço. Isso quer dizer que não serão aceitas redações feitas no computador: nem as impressas em impressora, nem, muito menos, as enviadas por e-mail.

Faz sentido?

A maioria dos alunos, legítimos membros da “Geração dos Nativos Digitais”, nascidos que são por volta de 1998, como é de se esperar, protesta – se não durante a sala, depois dela, na escola, em casa, e, naturalmente, pelo Facebook (há pouco mais de um ano, teria sido pelo Orkut).

Eu, como pai de aluno, como pessoa envolvida com tecnologia, e como professor e pensador na área da educação, não tenho nenhuma dificuldade em entender os alunos protestantes (i.e., que protestam) e, por conseguinte, me solidarizo totalmente com eles. Idade aqui não faz diferença. Nem as divergências em outros contextos.

Na verdade, escrevi uma nota de desabafo no meu mural no Facebook, dizendo:

“Fui testemunha, hoje, de uma coisa que me fez perguntar se estou de fato vivendo no século 21: uma tarefa de escola – uma redação – que tinha de ser feita à mão e entregue pessoalmente à professora em papel almaço. Tive de sair por aí procurando papel almaço (depois das 18h). Achei na Papel Magia, no Shopping Plaza Sul… Mas ainda estou escandalizado e com vontade de citar o nome da professora e do colégio aqui. Ou seria melhor citar a rede do sistema de ensino que o colégio usa?”

Quando saí procurando o papel, esperava que os atendentes das papelarias nem soubessem o que era papel almaço. Afinal de contas, quando eu fazia o Ginásio, no final de 1950, e o Clássico, no início dos anos 1960, ou seja, mais de 50 anos atrás, era nesse bendito papel que tínhamos de entregar nossas redações. A gente era obrigado a fazer uma margem, dobrada, de 2,5 cm (não sabia então que essa medida era basicamente equivalente a uma polegada) e entregar a folha sem dobrar. Para mim, um material desses nem existia mais, ou, se existisse, não seria conhecido do público em geral. Assim, foi com ceticismo que me dirigi às papelarias. Bom, surpreendi-me. Na Papel Magia o atendente não só sabia exatamente o que era aquilo que eu queria como tinha o material para pronta entrega e, ainda, o encontrou de pronto: um pacotinho de vinte folhas por 2,50. O preço me pareceu razoabilíssimo nas circunstâncias. Já estava preparado para fazer um rodízio de livrarias e papelarias de shoppings naquela altura.

Se me surpreendi na papelaria, não esperava me surpreender no Facebook. Imaginava que todos os meus contatos concordariam comigo que a exigência da professora era absurda – não, naturalmente, a exigência de que os alunos fizessem uma redação, mas a de que a apresentassem escrita à mão e, pior ainda, em folha de papel almaço.

Bom… Surpreendi-me de novo.

Um contato meu no Facebook disse que achava “sensacional” o aluno ser obrigado a fazer uma redação à mão. OK. Admito que alguém queira discutir isso. Outra foi além e disse que achava “maravilhoso” que a escola obrigasse os alunos a usar o papel almaço e expressava o desejo de que todas as escolas brasileiras voltassem a usar esse material. Neste caso, não OK… Acho isso um absurdo. Uma terceira participante no debate afirmou não entender por que havia tanta gente “se descabelando” por causa de uma coisa tão comum e trivial, como exigir que alguém usasse papel e caneta para fazer alguma coisa… Não era bem isso que era exigido, mas vamos fazer de conta que sim. Uma quarta disse que, se soubesse quem era o professor que havia feito a exigência, dar-lhe-ia um beijo. Disse que daria um beijo mesmo que o imaginado professor fosse de fato uma professora.

É verdade que a maior parte dos meus amigos de longa data no Facebook saiu à luta… De início, um pouco reticentes, meio que se recusando a acreditar que fossem genuínos todos esses elogios a uma exigência que lhes parecia totalmente despropositada. Talvez pensassem que os elogios fossem fake – uma gozação que eles simplesmente não estavam entendendo. Quando viram que era pra valer, muniram-se de brio e combateram o bom combate, mesmo assim com um leve sorriso nos lábios (conjecturo, pois não via seus rostos no Facebook), porque, afinal de contas, era difícil de acreditar que ainda seria preciso engajar-se nesse tipo de batalha no mês em que se comemora o aniversário de 30 anos do lançamento do IBM PC.

O sinal de que a coisa era séria ficou evidente quando uma das defensoras do papel almaço começou a gritar (isto é, a escrever tudo em maiúscula) e a dizer que ERA UMA PENA QUE EU ME DISPUSESSE A CRITICAR O “MELHOR ENSINO” (sic)…

Enfim, quais eram os argumentos alinhavados na crítica delas à minha crítica?

Em respeito aos leitores vou despachar rapidamente a defesa do papel almaço para dedicar mais espaço ao que é mais importante: a defesa da escrita à mão.

Para mim (e para vários participantes no debate que, começando à meia-noite, já tinha alcançado mais de cem comentários pela manhã), dada a exigência de que a redação fosse escrita à mão, exigir que a entrega fosse em papel almaço (em vez de folha de caderno ou papel sulfite) era equivalente a exigir que o texto fosse escrito com caneta tinteiro em vez de esferográfica… Ou datilogrado numa máquina de escrever Remington em vez de impresso por Microsoft Word em uma impressora a laser colorida. Ou, talvez, que fosse escrito com aquelas canetas de pena, sem depósito de tinta, que eu usava na escola a partir do segundo ano primário, que requeriam a colocação de um tinteiro em um buraquinho redondo na carteira que, de vez em quando, fruto de uma joelhada involuntária, espalhava tinta pela carteira inteira, sujando livros, cadernos e não raro a branca camisa dos alunos. (Quase toda carteira, no meu Grupo Escolar Prof. José Augusto de Azevedo Antunes, em Santo André, tinha uma mancha de tinta escura, ou mais de uma, virtualmente impossível de remover sem lixa muito grossa).  Considero isso suficiente para dispor do papel almaço – aquele que foi, sem deixar saudade.

Vejamos então o que foi apresentado em defesa da exigência de que o texto fosse escrito à mão, em letra cursiva.

Na realidade, muito pouco foi apresentado em defesa dessa exigência específica, porque havia confusão entre coisas que são – ou deveriam ser – bem distintas. A primeira dessas confusões estava em atribuir as dificuldades que muitos alunos hoje têm com a escrita e a redação ao fato de que a maior parte dos professores não exige deles que façam redação com frequência e que as façam do modo tradicional: escrevendo à mão num papel qualquer.

A segunda confusão foi atribuir essa escassez na quantidade de redações exigidas dos alunos à presença da tecnologia na escola. Parece que imaginavam que, assim que o computador entra em cena, os professores encontram outras coisas mais “modernosas” para fazer em sala de aula e se descuidam do básico e essencial, como redigir (à mão). É mais ou menos isso.

A primeira tarefa dos defensores da “modernidade”  foi desconfundir as coisas. Afinal, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e uma terceira coisa é, bem, uma terceira coisa.

Primeiro, nenhum dos críticos da professora tinha qualquer dúvida de que é extremamente importante aprender a escrever e a redigir textos mais complexos e que essas coisas a gente aprende fazendo. Portanto, nada contra o fato de que a professora exigiu dos alunos uma redação. Pelo contrário. E até se deve louvar o fato de que ela deixou o tópico a critério dos alunos – porque isso permite que a criatividade de alguns venha à tona. (Fazer cópia e receber ditado são tarefas que supostamente também nos ajudam no processo de aprender a escrever e a redigir… Mas, convenhamos, são das coisas mais desinteressantes do mundo).

Segundo, as dificuldades com escrita e redação dos alunos de hoje se devem, em parte, ao fato de que os professores não dão a importância devida a elas. Mas só pedir que os alunos façam redação não basta. É preciso ajudá-los a redigir bem, e isso se faz explicando no que consiste uma boa redação, lendo o que escrevem, discutindo com eles o que escrevem, sugerindo formas de expressarem melhor o que querem dizer etc.

Parte importante desse processo, que foi levantada na discussão, reflete algo que dificilmente acontece numa escola típica. A língua, falada e escrita, é o veículo através do qual nos comunicamos uns com os outros e expressamos o nosso pensamento. Toda roda de adolescentes é prova de que é possível falar e falar sem se dizer nada, isto é, de que é possível falar sem expressar pensamentos significativos. É a fala vazia, o falar por falar, a famosa “abobrinha”. (Essas rodinhas também provam que é possível rir o tempo todo – de nada ou daquilo que não tem a menor graça. Mas este é outro assunto…).

A escrita, em especial a redação, foi inventada para que a gente possa comunicar o nosso pensamento aos outros. Assim, se não sabemos pensar de forma clara, precisa, coerente e concatenada, dificilmente conseguiremos fazer uma boa redação. Ou seja, os maiores problemas com a escrita e a redação dos nossos alunos podem não ter causas apenas linguísticas, mas, também, lógicas e epistemológicas. E disso poucos professores das séries iniciais e poucos professores de língua portuguesa parecem se dar conta.

Terceiro, o impacto da tecnologia sobre essas questões é benéfico, não prejudicial. A coisa já vinha ruim desde antes da chegada maciça e significativa da tecnologia na escola (algo que, convenhamos, em relação à escola pública ainda não se deu), e as causas do problema não são tecnológicas.

Seymour Papert, o “papa” do uso da tecnologia na educação, uma vez escreveu um artigo em que dizia algo extremamente importante. Vou dividir a tese dele em partes para que seu argumento seja mais facilmente apreendido.  Reproduzo o argumento de memória, porque não fui capaz de localizar o artigo. Talvez tenha sido numa palestra ou aula dele que ouvi.

a. Aprender a escrever é um processo extremamente complexo. A escrita pressupõe a fala. E tanto a escrita como a fala pressupõem o pensamento (como já foi ressaltado atrás).

b. O ato de escrever à mão em letra cursiva envolve, além disso, em primeiro lugar, o domínio da coordenação motora fina necessária para desenhar as letras, que (exceto no caso de letras hoje chamadas bastão, antigamente de forma) são objetos normalmente muito pequenos e cheios de curvas e detalhes que exigem cuidado e prática para serem serem colocados no papel de forma correta e apresentável.

c. Além disso, o ato de escrever à mão, em letra cursiva ou não, envolve conhecimento da grafia correta das palavras, a “ortografia”: se, num determinado lugar, usa-se – para expressar de forma escrita um mesmo fonema – o “s” (como em sala), ou dois “esses” (como em passarinho), ou “ç” (como em caça), ou “c” (como em cego) ou “sc” (como em piscina)…  E há os acentos, os sinais diacríticos e diferenciais de antigamente, que parecem mudar a toda hora…

d. Para expressar pensamentos inteiros, é preciso usar frases de estrutura relativamente complexa, e, para isso, é preciso conhecer a sintaxe: a concordância, a regência, a combinação de orações coordenadas (sindéticas e assindéticas) e subordinadas, a diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal…

e. Enfim, há que se fazer tudo isso e ainda produzir algo que, além de dizer alguma coisa interessante e de forma correta, precisa estar apresentável: a letra tem de estar bonita (para que outra coisa serve a “caligrafia”?), não deve haver borrões e outras manchas, o papel não deve ficar amarrotado etc.

Enfim… Na escola convencional, em que se aprende a escrever à mão, o aluno, ao aprender a dizer coisas por escrito, também tem de aprender tudo isso. É muita coisa ao mesmo tempo para um ser tão pequeno – e que tem tantas outras coisas interessantes para fazer… A atenção do aluno é dividida com todos esses processos que, em muitos casos, claramente não são essenciais ao processo de exprimir o pensamento em linguagem escrita. Olhando para um aluno que está aprendendo a desenhar as letras, a gente vê o esforço e a concentração. Às vezes a linguinha até fica de fora, no canto da boca, para (supostamente) facilitar o processo. Coitado.

Quando o aluno aprende a dizer coisas por escrito usando o computador, porém, vários desses processos acessórios são assumidos pelo computador, que corrige ortografia, acentuação, pontuação, e até sintaxe, e deixa o texto lindo de morrer ao permitir que diferentes fontes ou tipos gráficos sejam usados. Além disso, se o aluno erra, ou quer alterar o texto, é fácil fazer isso, sem que o texto fique rasurado e o papel, borrado ou amassado.

Assim, ele pode concentrar a atenção no processo de escrever, isto é, pensar coisas e dizê-las por escrito.

Depois de aprender a dizer as coisas por escrito, ele pode aprender, se necessário, a desenhar as letras com a mão, a grafar as palavras corretamente sem o auxílio de um corretor ortográfico, a estruturar as frases sem o apoio do computador etc. Há quem ache que ele aprende isso tranquilamente, só no processo – prazeroso – de escrever o que lhe interessa.

Muitos países desenvolvidos já estão abolindo a aprendizagem da escrita cursiva no contexto escolar (o assunto foi discutido na imprensa – “EUA passam a abolir ensino de letra de mão nas escolas”; este blog também registrou o tema).

Uma das pessoas que me criticou no episódio do papel almaço escreveu no post sobre essa notícia:

“Deus me livre que isso aconteça no Brasil, escrever é um habito saudável, deveria ser muito mais estimulado [quem está propondo o contrário?], o fazer exercícios com caneta e papel é que faz com que o individuo aprenda a ler e a escrever [será?]. Nem tudo o que é bom pros Estados Unidos é bom pro Brasil, em vez de imitarem esse absurdo, porque não copiam as leis que realmente funcionam, a tolerância zero, enfim várias medidas que seriam ótimas pro país, agora reclamar e querer denegrir uma escola só porque ela pediu pra ser feita uma redação a mão e num papel almaço, me desculpem, mas é pura ignorância.”

A seguinte afirmação, usada no debate, é falsa: “O método antigo é que valia a pena ser aplicado; a modernidade só trouxe alunos que não sabem escrever, nem ler, corretamente”. A tecnologia, aqui, é parte da solução, não do problema. O problema é causado por uma falsa concepção e uma metodologia inadequada.

Que os que me criticam me desculpem. Fazer uma redação é importante. Fazê-la à mão, um atraso de vida. Fazê-la numa folha de papel almaço, troglodismo puro. A escrita não se limita à escrita cursiva, muito menos numa folha de papel almaço. Ou será que meus críticos preferem também os lindos livros manuscritos da Idade Média à conveniência de um livro impresso ou, melhor ainda, digital, num Kindle ou num iPad? Não foi a modernidade que trouxe alunos analfabetos, não. A tecnologia não é inimiga da aprendizagem – da boa aprendizagem, da melhor aprendizagem. O que prejudica a aprendizagem é a visão estreita e incompetência de quem se propõe a ajudá-la ou apoiá-la.

Assim, o importante é aprender a escrever e redigir. Não necessariamente à mão, nem à máquina, nem no computador: simplesmente aprender. Vamos pensar no que é essencial e não nos fixarmos no que é acessório.

3 Comentários

  1. Eduardo Chaves disse:
    Em 18/08/2011 às 21:25

    Mais um artigo meu no Blog das Editoras Ática e Scipione. Este, comentando o debate que houve aqui no meu mural nos últimos dias.

  2. Solange disse:
    Em 19/08/2011 às 09:13

    Caro Prof. Eduardo

    Concordo plenamente. Suas colocações são sempre brilhantes e pertinentes.

    Me recordo de copiar exaustivamente em folhas de papel almaço biografias de personalidades célebres (D. Pedro I e II, Tiradentes…) de enciclopédias, sem nem ao menos prestar atenção ao conteúdo. Era uma simples transcrição, um exercício mecânico de treino de caligrafia. O conteúdo era retirado de apenas uma fonte, pois pesquisar diferentes pontos de vista não tinha o menor interesse (no meu caso uma Enciclopédia Barsa, adquirida em 1965, ano em que nasceu a minha irmão caçula). Ora, a avaliação restringia-se apenas na clareza da minha letra e na “limpeza” e organização do papel. Qual a importância disto para a minha vida? O que aprendi? Talvez o incômodo do papel almaço venha deste ranço.

    Acredito que tanto faz o meio no qual depositamos nossas ideias, mas o importante é a pesquisa e a reflexão que o tema instiga e a articulação do pensamento do aluno para produzir o texto. Se ele vai digitar ou escrever à mão não importa!

  3. Vladi Fernandes disse:
    Em 19/01/2012 às 13:36

    Acho importante e inevitável o uso da tecnologia na educação. E por uma importância até ecológica evitar o uso abusivo e desperdício do papel (como vejo ainda em muitas escolas…). Mas como amante da caligrafia e da tipografia, assim como Steve Jobs foi, acho importante o aprendizado e o treino da caligrafia (pelo menos nas escolas…). Abraço.

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

  • Navegue por categoria

  • Colunistas

  • Tags

  • Parceiros pela educação