O que você faria com o livro didático, se os alunos descobrissem todas as respostas?

Uma matéria publicada no caderno Cotidiano, da Folha de São Paulo (02.04), mostrou algo que poderá acontecer com uma frequencia ainda maior em nosso cotidiano: alunos publicando respostas dos materiais didáticos na internet. Fatos como estes, devem nos fazer pensar em como preparar a escola para lidar com estes novos tempos.

Não é de hoje que este tipo de informação é compartilhada com outros alunos. Porém antes, quando acontecia, provavelmente era só de uma sala a outra. Com a Internet, em tempos de WikiLeaks, em que até segredos de estado podem ser consultados na internet, não temos como nos surpreender muito com o fato de que agora corremos o risco de que mais e mais alunos tenham acesso ao “poderoso” livro de respostas do professor.

Um dos blogs em que são compartilhadas informações a respeito do conteúdo dos livros didáticos é o “Sem Repetentes”. Um nome bastante sugestivo e que mostra uma preocupação dos estudantes: a de não ser reprovado. Assim, ao encontrarem uma saída para deixar todas as suas tarefas em dia e da forma considerada “correta” pela escola,  acabam burlando o próprio sistema.

Ora, se a escola cobra de todos respostas iguais e padronizadas e é dessa forma que avalia os alunos, estes acabam unindo forças para resolver um problema que todos têm em comum: realizar tarefas para entregar aos professores.

Aqui não estou desmerecendo o livro didático mencionado na matéria, afinal não o conheço. Penso que por melhor ou pior que seja o material, a diferença está no trabalho a ser realizado com o livro, bem como com os outros recursos disponíveis na escola. Obviamente temos livros e livros e atualmente temos opções que são mais abertas, permitem debates e diferentes formas de resolução de problemas.

De qualquer modo, o acompanhamento pedagógico dos educadores e a forma de avaliação das atividades realizadas na escola, é que podem fazer a diferença. Afinal, eu conheço ao menos um livro muito bom* que possui o manual do professor on-line, porém não faria o menor sentido os alunos copiarem as respostas, pois é um material que exige bastante trabalho de interação entre educadores e alunos e tudo isso está muito claro na proposta do material.

Alguns dos livros dos meus filhos, por exemplo, possui respostas ao final e estas estão liberadas pelos professores para que sejam consultadas, afinal a professora deixou bem claro que valoriza o processo e o raciocínio dos alunos na resolução de desafios e que copiar o resultado simplesmente, de nada adiantaria.

Há pouco tempo um amigo comentou que a professora do filho passou para a turma cerca de 300 exercícios de matemática, como castigo pelo mau comportamento dos alunos. Os 30 estudantes então tiveram uma ideia: dividiram as questões, cada um resolveu 10 e compartilhou com o restante, de modo que todos conseguiram entregar as atividades para surpresa da professora em um prazo que ela jamais imaginara. Eu classificaria esta ideia não intencional como genial! E sorte da professora ter tido a oportunidade de aprender com os alunos, que sabem usufruir da COLAboração para a resolução de desafios.

Há uma série de estratégias que desde já poderíamos implementar na escola para de fato contribuir com a formação dos alunos e “tirar toda a graça” da cópia de respostas, trazendo mais sentido para a aprendizagem, que é uma das grandes contribuições que podemos trazer ao processo educativo:

  • Problematizar o conteúdo do material didático, complementando com pesquisas realizadas na Internet, jornais, revistas e outras fontes;
  • Mostrar a eles diretamente resultados de algumas perguntas e desafiá-los a responderem de diferentes formas, mostrando que há diversas maneiras de pensar e de resolver um mesmo desafio;
  • Incentivá-los a fazer perguntas a partir de textos propostos nos livros didáticos, em vez de meramente responder todas. Eles perceberão que uma boa pergunta é muito mais difícil de ser feita, do que responder a grande maioria das questões;
  • No caso dos alunos terem realmente descoberto as respostas de algum material de apoio. Trazê-las para a sala de aula e orientá-los sobre como podem utilizar este material para estudar e conferir respostas. Além disso, traga também novas questões para o mesmo material, desafiando-os novamente;
  • Propor questões que deverão ser resolvidas em grupo, aproveitando as habilidades de colaboração que os alunos costumam demonstrar em classe;
  • Buscar integrar os desafios propostos nos livros didáticos ou propor desafios novos por meio de mídias e recursos que os alunos costumam utilizar: celulares, computador, internet, mp3. Se não souber como, procure conversar mais com a turma a respeito e certamente muitos deles trarão contribuições relevantes nesse sentido.
  • Discutir sempre o papel da escola e a importância da aprendizagem para a própria vida dos alunos e não apenas no contexto escolar. Se os alunos pensarem que a única razão de estudar é para “tirar nota” ou ser aprovado, grande parte das ações perderão o sentido e sempre buscarão burlar o sistema.

Enfim, temos realmente mudar a estratégia, se ainda não o fizemos. Nossa sociedade não espera mais que todos tenham as mesmas respostas, então é preciso parar de fazer as mesmas perguntas.

*Manual dos livros da coleção “Construindo a escrita” , disponível em: http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/complementos/construindo_escrita/construindo_escrita.aspx

 

15 Comentários

  1. Em 07/04/2011 às 10:33

    Mary, parabéns pela matéria! Há tempos necessitávamos dessa reflexão! bjs

  2. cybelemeyer disse:
    Em 07/04/2011 às 12:42

    Mary,

    Que maravilhoso seu artigo.
    Perfeito!
    Claro, objetivo, eficaz e #simplesassim
    Vou divulgar muito.
    bjs

    • Mary Grace disse:
      Em 07/04/2011 às 16:34

      Oi Cybele, que bom que gostou! Bom saber que mesmo com tantas atividades você consegue estar conectada a tudo!
      bjs e obrigada pela divulgação.

  3. Em 07/04/2011 às 23:01

    Mary!

    No livro didático que a turma do 8º ano recebeu em 2011 há uns textos do gênero mito, abordando a mitologia grega. Eles serviram de ponto de partida, mas nós fomos além. Os alunos em grupos, pesquisaram mais sobre o assunto, socializaram. Um dos grupos organizou uma peça teatral(até mandaram o pai fabricar o trident de Poseidon, tal e qual) , vimos o filme Percy Jackson e o Ladrão de Raios. Nunca vi os alunos tão empolgados. Gostei bastante de suas sugestões. São valiosas. Abraços!

    • Mary Grace disse:
      Em 08/04/2011 às 09:03

      Oi Marli,
      Muito bacana ampliar as possibilidades do livro didático. Assim tudo faz mais sentido: usá-lo como ponto de partida, porém mantê-los conectados com outras fontes e até mesmo com a web. Bem rica essa experiência que você relata.
      bjs
      Mary

    • Josete disse:
      Em 09/04/2011 às 09:45

      Legal, Marli!
      É isso mesmo. Admiro seu trabalho.

  4. Josete disse:
    Em 09/04/2011 às 09:42

    Oi amiga!
    Que bom te ver por aqui com mais esta polêmica questão, heim?
    Em minha opinião o livro didático é bom. E ele é preparado por pessoas muito competentes! O que precisa é que ele NÃO seja entendido como o único apoio da disciplina ou da turma. É preciso que os professores o conheçam muito bem e a partir disso, criem as suas estratégias de ensino, como você sugere muito claramente. Bjs

  5. Magda Bispo disse:
    Em 10/04/2011 às 18:27

    Parabéns pelo artigo!
    É fundamental refletrimos sobre a utilização não só dolivro didático,mas de todo material didático utilizados pelas nossas escolas, sejam elas públicas ou particulares.
    Com certeza irei recomendar este artigo às pessoas que conheço.

    Abraços.

    • Mary Grace disse:
      Em 10/04/2011 às 18:51

      Oi Magda, com certeza! Grata por sua indicação.
      Abraços
      Mary Grace

  6. Em 10/04/2011 às 19:54

    Olá Mary
    Excelente reflexão. Já está na hora de colocarmos algumas ações em prática uma vez que hoje somos mediadores do processo.
    Abraços,
    Débora Martins

    • Mary Grace disse:
      Em 10/04/2011 às 21:39

      Obrigada Débora! Esta mesmo mais do que na hora…
      bjs
      Mary

  7. Maria Geni Fortunato disse:
    Em 17/04/2011 às 05:50

    Olá, Mary
    Seu artigo é muito interessante e precisa ser divulgado o máximo possível.
    Nós, professores, temos muito que aprender com nossos alunos (nativos digitais), e o que faz a diferença em sala de aula é a diversidade de propostas de trabalho.
    Sempre recebo ligações de colegas me pedindo o livro do professor para que tirem xérox, a fim de passar as respostas para os filhos, usuários desse material. Então… fica até difícil mudar a escola, concorda?
    Abraços, Maria Geni.

    • Mary Grace disse:
      Em 18/04/2011 às 10:03

      Oi Maria Geni, acho que é justamente aí que podemos estabelecer uma parceria: aprendendo com os alunos e aproveitando o pique que eles têm com as tecnologias e ao mesmo tempo contribuindo com todo o nosso conhecimento e a própria experiência de vida.
      Nossa… querer passar as respostas para os filhos é muito grave… eu ainda não havia me deparado com esta situação. Realmente é preciso orientar estes pais e muito…
      Grata por sua contribuição!
      bjs

      • nuria meurer disse:
        Em 18/02/2012 às 12:55

        Olá Mary,

        Gostaria de compartilhar as tuas ideias referente aos cuidados que devemos ter em relação ao material didático. Sabemos que os livros didáticos são elaborados com conteúdos riquíssimos. Na verdade o que precisamos fazer é nos apropriar do conhecimento deste conteúdo que está no livro, depois podemos reelaborar questões relativas para que o aluno possa usá-lo. O professor que está em contato constante com o aluno precisa buscar o que tem de novo no mercado hoje. Mas quando ainda temos professores que possuem dificuldade de buscar o novo, dizendo que “sabe” usar o livro, mas na verdade faz cópia dele, então fica fácil entender porque os pais pedem as respostas ao professor de seu filho.

Um Trackback

  1. [...] O que você faria com o livro didático se os alunos descobrissem todas as respostas? >> artigo em que elaboro o que sempre quis dizer a respeito das boas obras e de como podemos trabalhá-las em sala de aula: é preciso valorizar mais o processo de ensino e aprendizado que a resposta final. [...]

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