Velhas tecnologias e
(velhas) formas de ensinar

A tecnologia está cada vez mais variada e disponível, porém com ela vem a questão: que tipo de aprendizado proporcionamos aos nossos jovens?

No cotidiano da escola, a cada dia há uma inovação: netbooks, lousas digitais, tablets… Com esses aparelhos, surge a promessa de maior interatividade para a melhoria da educação.

Mimeógrafo? Há professores da nova geração que nunca viram um e há os que fazem careta, dizendo que este recurso está ultrapassado. Será? Cada vez mais fico convencida de que ultrapassada mesmo está a nossa forma de trabalhar, mas alguém tem que ser culpado e nada como culpar um objeto ou a falta de recursos, quando não temos toda a pirotecnia do século 21.

Quando eu lecionava, havia um recurso ainda mais desconhecido pelos professores, chamado episcópio. Este aparelho pouco utilizado era uma herança das escolas estaduais, presente também em algumas escolas municipalizadas. Gostava muito de utilizá-lo para compartilhar as produções dos alunos e discuti-las coletivamente.

Era só colocar o material na máquina e projetá-lo na parede. A imagem a seguir exibe um modelo bastante antigo (dos anos 1950), porém útil para ilustrar a funcionalidade do episcópio:


*Foto: Berthold Werner/Wikimedia Commons

Ele era pesado e dava um certo trabalho carregá-lo até a sala. Além disso, era preciso deixar o local bem escuro para que a reprodução funcionasse bem. Mas valia muito a pena!

Sempre que os alunos produziam textos, por exemplo, eu escolhia alguns e todos da turma tinham que deixar contribuições para melhorá-los. Também deviam destacar o que achavam mais interessante na produção dos colegas.

Depois, todos refaziam seus textos e discutíamos novamente os avanços. A discussão coletiva muitas vezes contribuía não apenas com a produção que estava sendo analisada, mas trazia elementos para que cada aluno melhorasse seu próprio trabalho. Muitas vezes comparávamos também o antes e o depois.

Um recurso mais conhecido com semelhante função é o retroprojetor. Este, porém, geralmente depende da produção de slides feita pelo professor, tornando a aula mais expositiva. Na minha turma, os próprios alunos sabiam manusear o episcópio e adoravam.

Quando não faziam lição de casa, sentiam muito na hora que viam os colegas projetando suas tarefas para a turma. Alguns até pediam para fazer algo na hora para que pudessem participar da apresentação.

Outro equipamento que teve vida longa nas escolas – e ainda sobrevive, em muitas – é o mimeógrafo. Quando lecionava, cheguei até a comprar uma impressora matricial para facilitar a elaboração de aulas, uma vez que não tínhamos cotas de xérox nem exemplares de livros didáticos para todos os alunos. Nem sempre dá para depender apenas da lousa…

Sempre achei importante que os alunos tivessem mais tempo para pensar. Bem, e pensar não significa fazer cópias e mais cópias do quadro. O mimeógrafo de certa forma poupava-os da tarefa de “copistas” e me permitia compartilhar com eles textos e atividades.

O uso mais significativo do mimeógrafo que conheço foi citado em A paixão de conhecer o mundo, de Madalena Freire. No livro, a autora sugere que o educador não “passe atividades” para os alunos, mas proponha que eles mesmos elaborem tarefas e as façam rodar na classe.

Oras, é possível sim desenvolver atividades com sentido social que coloquem os alunos no papel de protagonistas, mesmo usando apenas mimeógrafo! Quantas coisas mais poderiam ser feitas com um recurso tão simples e de baixo custo?

O pedagogo francês Célestin Freinet (1896-1966) produzia jornal com os alunos utilizando a prensa escolar, engajando-os na produção de algo significativo, que os motivava a aprender. As crianças compunham os textos, discutiam e faziam sua edição em pequenos grupos. Era mais difícil produzir jornal dessa forma do que com uma máquina de escrever.

*Foto: Mica/Wikimedia Commons

Não há dúvidas de que hoje tudo é mais fácil e rápido, sem contar a qualidade da apresentação e o potencial de socialização não somente dentro da escola, mas por meio da web.

Hoje, dotados de impressoras, aparelhos de datashow, lousas digitais, netbooks, que tipo de atividades estamos promovendo? Sem dúvida estas tecnologias apresentam um potencial de inovação muito grande, mas sozinhas são incapazes de transformar a educação.

Vale a pena refletirmos sobre as inovações que fazíamos antes dessas tecnologias. Os mais velhos têm, inclusive, muito para contribuir e pensar: o que fazíamos antes, quais princípios pedagógicos tínhamos e como podemos nos superar? O que nos impede de inovar, quando existem tantos recursos ao alcance? E o que nos impede de inovar quando não há tantos recursos disponíveis?

Algumas (velhas) formas de ensinar já seriam inovadoras se fossem colocadas em prática atualmente, com as tecnologias que dispomos! No próximo post falarei mais a respeito destas tecnologias e sobre o que temos feito com elas.

12 Comentários

  1. Vilma disse:
    Em 02/08/2011 às 23:36

    As tecnologias (novas ou velhas) podem ser maravilhosas, se usadas e pensadas por educadores comprometidos e com a capacidade de apaixonar seus alunos pelo saber! Adorei o texto!
    Vilma Bonfim

    • Mary Grace disse:
      Em 03/08/2011 às 08:32

      Oi Vilma, é isso mesmo! Frequentemente colocamos foco, delegando toda a culpa ou mesmo deslumbramento por conta das tecnologias que são fruto da ação humana. Na educação temos que pensar nesta linha… ou seja, nenhuma tecnologia é inovadora por si só e sim o que podemos fazer com ela para mudar a realidade, sempre para melhor…
      grata por passar por aqui e comentar!

  2. Regin@ disse:
    Em 03/08/2011 às 08:25

    Muito significativo o texto! Como você diz, havendo comprometimento, motivação, mesmo velhas tecnologias podem ser ainda nos dias de hoje, incentivadoras de aprendizado significativo e contextualizado.

    • Mary Grace disse:
      Em 03/08/2011 às 08:32

      Oi Regina, é isso mesmo! As vezes desvalorizamos recursos muito simples e que podem trazer bons resultados dependendo de como lidamos com eles.
      Grata
      Mary

  3. Zilda Kessel disse:
    Em 03/08/2011 às 10:15

    Parabéns e obrigada por compartilhar esta reflexão. Os discursos da inovação começam sempre por destruir processos e produtos e destituir o sentido do que fizemos (e fazemos), como se isso já fosse o passaporte para o novo, sinônimo de qualidade. Não, não é!! Episcópios, retros podem ter uso interessantes, vc listou alguns (quem dera fossem usados com esta competência hoje!!). Assim como aulas expositivas (objeto da ira de muitos) podem também ter espaço e sentido. Por outro lado, quantos têm usado os novíssimos equipamentos e as mídias em propostas, estas sim!!, bem pouco inovadoras!!

    • Mary Grace disse:
      Em 04/08/2011 às 08:07

      Oi Zilda,
      Com certeza! Penso inclusive que precisamos valorizar mais o que já foi feito e construído historicamente para conseguirmos avançar. O discurso vazio de jogar tudo fora só nos prejudica e tem deixado o professor sem rumo, deixando de resgatar instrumentos e práticas tão importantes no passado e que ainda hoje poderiam fazer mais sentido do que muito do que é feito de forma perdida, desorganizada.
      Também acredito em uma boa aula expositiva, assim como no trabalho colaborativo entre alunos, mediado pelo professor. A questão é saber em que situações o professor deve trabalhar desta ou daquela maneira.

  4. Em 03/08/2011 às 13:42

    Conheci uma psicóloga que fazia uso de diversas técnicas (novas e velhas) em terapia. Percebia que esta profissional nunca deixara de estudar. E penso que o mesmo deve acontecer com o professor. Há tecnologias e estratégias, velhas e novas, todas com um potencial grande e adequadas a determinadas situações. O que nos falta é ter domínio destas e aplicá-las. A formação continuada dos docentes é essencial para a melhoria da educação no Brasil. Há que se investir nela (governantes, patrões, profissionais da educação também). E o contínuo estudo alimenta a paixão de lecionar cada vez melhor. Afinal, é o professor o elemento chave dessa equação.

    • Mary Grace disse:
      Em 04/08/2011 às 08:23

      Oi Andrea, realmente. Esta combinação, bom senso e sabedoria para selecionar o que é relevante para atender a um objetivo é o mais importante. Alguns discursos de inovação parecem apenas desconsiderar o que já foi construído historicamente, como se tudo que já foi feito fosse ruim. Toda essa discussão que parece moderna, a respeito de trabalho colaborativo, aluno protagonista, etc, etc é antiga e não incorporamos nem mesmo estas práticas “antigas” e já queremos pular etapas, com o discurso das “novas tecnologias”…

  5. Mary Grace disse:
    Em 04/08/2011 às 08:08
  6. Em 04/08/2011 às 10:08

    Oi Mary

    Gostei muito da tua argumentação. A tecnologia não é o motor da história, um novo descolado de tudo, com poderes por si só de transformar a realidade. A tecnologia vem como resposta a uma necessidade e não antes ou no lugar de uma proposta, de um plano.

    Escrevi muito sobre isso na minha tese, problematizando o conceito que construímos sobre a tecnologia. Por conta da tese andei afastada da web, um distanciamento necessário até por conta do tema :)

    (eu tb gosto muito do episcópio)

    Abração

    Suzana Gutierrez

  7. Em 23/08/2011 às 20:52

    Oi Mary… tudo bem?
    Nossa… esse artigo me fez lembrar das minhas aulas de Didática no curso de Magistério!! Nem faz tanto tempo assim… mais ou menos uns 13 anos!! rsrrss.
    Aquele cheirinho de álcool do mimeófrafo.. eu amava!!
    E olha hj como as coisas mudaram, quase nem estamos escrevendo mais. Tudo é e-mail, mensagens virtuais, toque em telas… etc. Tudo muito tecnológico!!
    Grande abraço!!

    • Mary Grace disse:
      Em 23/08/2011 às 21:02

      Oi Márcia, é gostoso lembrar de tudo isso não é? E o carinho com que sempre lidamos com todas estas tecnologias. Agora é tudo muito mais ágil e realmente contemplamos menos o escrever a mão… novos desafios que temos pela frente!

3 Trackbacks

  1. [...] Na semana passada tivemos uma rica discussão sobre o fato de que não é a tecnologia que inova ou beneficia a aprendizagem por c…. [...]

  2. [...] Na semana passada tivemos uma rica discussão sobre o fato de que não é a tecnologia que inova ou beneficia a aprendizagem por c…. [...]

  3. [...] Velhas tecnologias e (velhas) formas de ensinar >> dando sequência ao raciocínio anterior, neste post tentei colocar em xeque a supervalorização das tecnologias, vendida como algo transformador da escola. Já nos esquecemos do quanto bons professores podem fazer coisas muito interessantes sem todos os aparelhos e mídias de que dispomos hoje, no mesmo compasso em que diversos recursos modernos que são subutilizados por escolas altamente informatizadas. Assim, argumento que o educador deva realmente centrar-se no uso que fazemos das tecnologias, ao invés de condená-las ou culpá-las. Nossos problemas, na maioria das vezes, são muito mais pedagógicos que tecnológicos. [...]

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

  • Navegue por categoria

  • Colunistas

  • Tags

  • Parceiros pela educação