Diretor de escola:
muito mais que um burocrata

“Na próxima vez, você vai para a diretoria!”. Muitas vezes visto como sujeito repressor ou burocrata, o diretor escolar deve ser antes de tudo um educador, reflete Nelson Piletti neste artigo.

Diretor de escola: muito mais que um burocrata. Artigo de Nelson Piletti.

Por Nelson Piletti*

De acordo com a Constituição, um dos princípios sobre os quais deve basear-se o ensino é o da valorização dos seus profissionais (Art. 206, V). E um desses profissionais, cujo papel muitas vezes acaba subestimado, é o diretor de escola.

As tarefas burocráticas e rotineiras que geralmente absorvem o dia a dia desse gestor representam apenas um sintoma da sua subvalorização. Retomo um exemplo empregado em 2010, que permanece atual:

“Uma pesquisa realizada com os diretores da rede municipal de ensino de São Paulo revela que 70% do trabalho está ligado a funções rotineiras. Eles se queixam do excesso de atividades administrativas, que ocupam a maior parte do tempo de trabalho (com relatórios e formulários) e os impedem de se dedicarem com mais afinco às atividades pedagógicas: ‘Ando com um radinho na mão, porque toda hora me chamam para assinar papel’, desabafa Elizabeth Fátima Faria Micheletti, diretora da Escola de Ensino Fundamental 19 de Novembro, na zona leste de São Paulo, ao jornal Folha de S. Paulo” (Educação básica: da organização legal ao cotidiano escolar, de Nelson Piletti e Geovanio Rossato. São Paulo, Editora Ática, 2010, p. 170).

Embora a prática nem sempre permita, as responsabilidades do diretor vão muito além das tarefas cotidianas. E (por que não dizer?) certamente extrapolam o papel repressor que continua a exercer ou simbolizar: “Na próxima vez, você vai para a diretoria!” é uma máxima que ainda ecoa em salas de aula Brasil afora.

Episódios à parte, a principal responsabilidade do diretor é manter a escola focada em suas atividades-fim, ou seja, cabe-lhe desenvolver um trabalho fundamentalmente pedagógico: orientar os professores no sentido de um trabalho de conjunto rumo aos objetivos da escola; estimular a pesquisa e a experimentação de novos processos de ensino (em busca de soluções para os problemas concretos enfrentados no dia a dia da sala de aula); encorajar os professores a se atualizarem constantemente; promover discussões, debates, troca de ideias entre professores, alunos, famílias e comunidade, com vistas à melhoria das condições de ensino e à realização pessoal e social de uns e outros.

Não se pode esquecer de que a escola está situada em determinada comunidade com características próprias, que acabam interferindo no trabalho escolar e exigindo do diretor uma atenção especial ao desenvolvimento de uma relação construtiva entre a escola e a comunidade. Esta interação deve amadurecer e evoluir em diversas vertentes, entre elas a abertura das próprias instalações escolares para atividades culturais, recreativas e de promoção social, especialmente em áreas carentes, como já abordei neste outro artigo.

Em suma, além de autoridade e administrador, o diretor é essencialmente educador. Quando acessível, aberto ao diálogo e presente na vida escolar, tanto por palavras como por ações, ele pode exercer enorme influência sobre o desenvolvimento dos alunos. Como verdadeiro animador do trabalho educativo, mais do que ao passado, para julgar e punir possíveis erros, deve voltar-se ao futuro, abrindo novos caminhos que tornem mais rica e fecunda a formação de crianças e adolescentes.

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*Nelson Piletti é graduado em Filosofia, Jornalismo e Pedagogia. Mestre, doutor, livre-docente em Educação (USP) e professor aposentado da Faculdade de Educação (USP), publicou dezenas de livros didáticos, paradidáticos e acadêmicos nas áreas de Educação e História, entre os quais Sociologia da educação: do positivismo aos estudos culturais (Editora Ática, 2010), em coautoria com Walter Praxedes.

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