Ler jornais, ler o mundo

A concorrência com as mídias eletrônicas reduz o papel dos jornais como fonte primordial de informação. Na avaliação da infoeducadora Januária Alves, este fato não diminui, contudo, a sua relevância para a formação de leitores.

Por Januária Alves*

Ler jornais, ler o mundo. Artigo de Januária Alves, ilustração de Camila Olivetti.

Em meu último artigo, discuti a questão dos diferentes tipos de textos ajudarem na formação dos nossos leitores. Ao abordar a importância de oferecermos diversos gêneros de livros concluí que só podemos escolher e (re)conhecer bons textos, lendo. É no exercício da leitura de múltiplos suportes textuais que conseguimos reconhecer suas qualidades (e defeitos) literários.

Por isso, acho que vale a pena, então, refletirmos sobre a importância da leitura de jornais para nossas crianças e jovens leitores.

O papel do jornal vem se transformando nos últimos anos, especialmente com a popularização da internet. De fonte “exclusiva” dos principais acontecimentos do mundo, passou a perder espaço com o surgimento da TV, que ao agregar o texto à imagem em movimento produziu formas diferenciadas de relação entre o leitor e as notícias.

Com a chegada da Rede Mundial de Computadores, onde não só as grandes empresas jornalísticas postam notícias minuto a minuto, mas o cidadão comum tem acesso a elas e também as publica online, o jornal impresso viu-se obrigado a rever seus paradigmas e a concluir que seu papel, nos dias de hoje, é muito mais o de organizar a informação inespecífica, comentando-a, analisando-a, contextualizando-a, tornando-a compreensível em todas as suas articulações e descortinando assim, aos olhos do leitor, os seus diferentes aspectos; do que propriamente produzir notícias “em tempo real”. É como diz o jornalista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi:

“Temos que contar boas histórias, levar o leitor pela mão para o local dos fatos, com suas cores, sabores, odores. Antes, a nossa função era recolher as peças do quebra-cabeça e oferecê-las ao leitor. Hoje, as peças estão disponíveis em outras mídias. Resta-nos a competência de montá-las de forma que faça sentido para o leitor.” (Leia mais aqui.)

Ou seja, pela sua especificidade, pela linguagem jornalística que congrega no mesmo espaço texto e imagem e pela possibilidade de articulação destes diferentes elementos, o que possibilita uma leitura crítica da realidade, o jornal pode ser considerado uma “janela do mundo”. Um mundo editado, é claro, pois as notícias são veiculadas a partir de uma gama imensa de critérios e contextos. Mas, ainda assim, é por meio do jornal – seja ele impresso ou não – que tomamos contato com muitos dos fatos que impactam profundamente a História e o nosso cotidiano.

Considero, por isso, a leitura e o trabalho com textos jornalísticos estratégias fundamentais da escola para a formação de leitores. Como salienta o educador Nilson José Machado,

“… um jornal é um veículo de informação e a informação é uma matéria-prima fundamental na escola. Naturalmente, na mesma medida em que a escola não é um supermercado de informações, um jornal não é um banco de dados. O texto jornalístico articula informações, estabelecendo relações e construindo o significado da mensagem que veicula”.
(Cidadania e Educação, Escrituras Editora, 1997)

O jornal, por sua natureza multi e transdisciplinar, permite um sem-número de atividades e reflexões que possibilitam ao aluno experimentar diferentes chaves de leitura. Freinet (1896-1966), educador francês que pesquisou o uso desse veículo de informação na escola, chamava atenção para o aspecto de que a leitura do jornal é uma atividade diferente da leitura de um texto manuscrito, uma carta, um livro, uma bula de remédio, por exemplo. E, por isso, abre caminhos para que os leitores se apropriem de códigos e meios que o mundo contemporâneo desenvolveu.

Jornais são instrumentos valiosos para o trabalho crítico de leitura do mundo em que vivemos, num espaço democrático como deve ser a escola. Aliás, o exercício de leitura de jornais é também um exercício de democracia, pois é direito de todo cidadão não só ter acesso à informação como também compreendê-la, entender como influi e transforma o mundo em que vivemos.

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*Januária Cristina Alvesibi é colaboradora pedagógica das Editoras Ática e Scipione. Atua como jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 25 livros publicados.

8 Comentários

  1. Márcia Maria Felipe disse:
    Em 26/07/2012 às 20:26

    Sim, O jornal sempre teve e terá espaço na escola, pois trazer o jornal para nossos alunos é uma estratégia muito boa, principalmente os alunos que não tem contato com esse tipo de gênero textual.

  2. mariza leal warlem disse:
    Em 29/08/2012 às 12:37

    o jornal, por conter vários gêneros, permite um trabalho muito enriquecedor com os alunos. mariza

  3. Euzebia disse:
    Em 07/09/2012 às 15:56

    O jornal é uma das melhores fontes para se desenvolver um trabalho com leitura e escrita.

  4. talma disse:
    Em 10/09/2012 às 20:48

    Chego com uma leitura em que as crianças passam a ter interesse na leitura. Uso o jornalzinho que vem justamente para crianças contendo: histórias em quadrinhos, carta de leitor… Eles adoram, procuro chegar devagar para que elas tenham prazer na leitura.

  5. Adelaine disse:
    Em 11/09/2012 às 16:36

    Os recursos impressos não perderam seu espaço nas bancas de jornais e livrarias. O registro escrito tem papel fundamental na sociedade leitora, embora também tenhamos hoje outros instrumentos de comunicação. Na sala de aula, as crianças ainda podem desfrutar da variedade linguística que os jornais e revistas apresentam. E estes são recursos muito válidos para a aprendizagem da leitura e escrita.

  6. Edilene Guimarães disse:
    Em 10/10/2012 às 22:04

    O jornal é um meio de atingir vários objetivos para formação do leitor eficiênte.

  7. Milena Cristina Lima disse:
    Em 29/11/2012 às 02:44

    O jornal desperta curiosidade, fazendo que os alunos desenvolvam a leitura e a escrita tornando os leitores capazes e eficientes.

  8. Márcia Diniz disse:
    Em 07/12/2012 às 12:42

    Sim o jornal continua sendo um material muito importante na aquisição e compreensão da linguagem.

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