Retratos da leitura no Brasil:
o que os números escondem

A leitura é o exercício de “saber ler” ou de compreensão do que é lido? Quem mais influencia os jovens brasileiros a gostar de ler? Notas sobre o desafio para a formação de leitores no país.

Por Januária Alves*

Outro dia a minha faxineira chegou muito animada com um livro na mão: Ágape, do Padre Marcelo Rossi. “ tentando ler, minha vizinha disse que tem muitas mensagens importantes para a vida da gente”, disse-me ela. Há dois anos trabalhando comigo e me ouvindo falar da importância dos livros, ela sempre me dizia que não se animava a ler porque não tinha tempo, chegava tarde em casa depois de um longo dia de trabalho e de trânsito etc. e tal. Seu entusiasmo com Ágape me fez acreditar que talvez ela estivesse sendo “fisgada”, finalmente, pelo prazer da leitura.

Semanas depois, como não a vi falando mais sobre o tal livro, perguntei-lhe se tinha finalizado a leitura e se havia gostado: “Não consegui acabar de ler. É difícil, quando leio a segunda página não consigo me lembrar do que tinha na primeira. Desisti. Acho que ler é para quem sabe”, decretou ela, fechando o livro, quem sabe, para sempre…

Essa história ilustra bem os números da 3ª edição da pesquisa do Instituto Pró-Livro, “Retratos da Leitura do Brasil”: dos mais de 5 mil brasileiros entrevistados em 315 municípios, só 50% são leitores. Eles leem quatro livros por ano, em média, sendo que apenas dois do começo ao fim.  Estes são os dados que a pesquisa revela, mas me pergunto: o que será que eles escondem? Por que a metade dos brasileiros não se interessa por livros? E por que os leitores de quatro livros só conseguem concluir a leitura de apenas dois?

A pesquisa aponta caminhos para que pensemos sobre essas questões. Dos entrevistados, 42% declaram que os “livros são fonte de conhecimento para a vida” e 75% dos que leem o fazem por prazer. O que nos faz desconfiar que a ideia, o imaginário dos brasileiros a respeito da leitura, é muito positivo. Como a dona Maria, os brasileiros valorizam a leitura e a reconhecem como um instrumento de inserção social, de aprendizado prazeroso sobre as questões importantes da vida. Será que isso não revela que o brasileiro tem mais razões para ler do que pode imaginar a nossa “vã pesquisa”?

Eu arrisco dizer que sim. Tal como Maria, muitos brasileiros “desistem” dos livros por questões de outra ordem: é preciso ler e compreender o que se lê, dar-lhe um sentido, perceber uma proximidade com a vida real. Com certeza lemos para saber mais, para matar a nossa curiosidade sobre o mundo, para nos identificar com o que estamos vivendo. Se não compreendemos o que lemos, a nossa leitura está condenada ao fracasso.

O assunto é complexo para se esgotar num post, a ideia é provocar uma reflexão para avançarmos nas hipóteses que deem conta de explicar o porquê desses números. Será que a compreensão do que se lê está garantida entre os que estão alfabetizados no Brasil? Será que conseguir ler apenas dois livros inteiros por ano tem mais a ver com desinteresse ou com a dificuldade de chegar até o final dos livros?

A pesquisa também revela que os textos escolares são os “campeões de leitura” e o gênero mais lido é o didático (66%). Além disso, o professor aparece como a figura que mais influenciou os leitores a gostar de ler. Ou seja, a escola tem um papel preponderante na formação dos leitores brasileiros.  Sendo assim, talvez caiba perguntar: o que será que as escolas teriam que ensinar para, efetivamente, proporcionar aos alunos uma “leitura possível”? Talvez se começarmos a responder a questão por aí possamos compreender melhor o que revela o retrato da leitura do Brasil…

___
*Januária Cristina Alvesibi é colaboradora pedagógica das Editoras Ática e Scipione. Atua como jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 25 livros publicados.

10 Comentários

  1. Carlos Castelo disse:
    Em 13/04/2012 às 22:41

    Adorei ler o seu post. Espero que, em breve, muito mais brasileiros possam descobrir esse prazer também: o de acessar um texto bem pensado e bem redigido.

  2. Lilian Lovisi disse:
    Em 14/04/2012 às 09:17

    Janu

    Gostei muito.

    Infelizmente é tudo verdade. Remédio há. Investimento em educação, parar com a corrupção, a roubalheira e deixar o dinheiro ir para aonde deve ir.

    Mas este é um problema cultural.

    Além da educação, é preciso ter formação de caráter.

    Ichi, aí a coisa pega!

    beijão

    Lilian

  3. Thiago Aguiar disse:
    Em 14/04/2012 às 09:46

    Olá, Januária.
    Vou propor três hipóteses para o problema que você apresenta, de modalidades bastante diferentes, para provocar.
    1. Faz parte das raízes da cultura brasileira a ideia de que o esforço não é necessário para se obter bons resultados. Pense na ideia que que nós cultuamos os talentos “natos” dos grandes brasileiros. O argumento é longo para expor aqui, mas remeto à leitura do “Raízes do Brasil”, do Sérgio Buarque de Holanda.
    2. Um número significativo de pessoas em nosso país são alfabetizadas mas não são letradas. Nós temos poucas práticas de leitura/escrita em nosso cotidiano. Quantos minutos diários nós lemos ou escrevemos coisas que não são rotineiras? Ler/escrever exatamente a mesma coisa ao longo de um dia não desenvolve uma prática letrada.
    3. Somos estimulados, especialmente as gerações mais jovens, a buscar um “saber em pílulas”, com respostas imediatas a questões rápidas e superficiais; certo fast food intelectual.
    Ler livros é uma atividade oposta a estas três características. Exige esforço, letramento e slow thinking. A escola básica é, com certeza, o principal espaço para o desenvolvimento destas três exigências. Destaco, também, o papel da formação de ensino superior para sustentá-las. Mas, principalmente, de uma postura pessoal de questionamento ao ritmo cada vez mais acelerado que vivemos.
    Beijos
    Thiago.

  4. Em 14/04/2012 às 13:34

    Interessante ‘pensata’ da autora do artigo, que parte de um exemplo bem próximo e real (o da própria faxineira) para pontuar os nºs da pesquisa ‘Retratos da Leitura do Brasil’.
    Ela levanta pontos para reflexão e finaliza o texto questionando uma ‘leitura possível’, que caberia em grande parte à escola, uma vez que os dados da pesquisa apontam a figura do professor como grande incentivador da leitura.
    A frase da faxineira é um bom mote para entender o tamanho do desafio na formação de novos leitores: “ler é para quem sabe”. Sem compreender, ler serve pra quê?

  5. Simone disse:
    Em 15/04/2012 às 10:02

    A questão é para refletir muitooooooooooo, pq será q o didático é o campeão?Prazer ou necessidade?Obrigação?E os que são lidos são compreendidos?Pq será q os q gostam só completam 50% do q começaram?
    Monteiro Lobato disse : um país se faz com homens e livros, e hoje percebemos que só livros não basta é preciso livros lidos e compreendidos.

  6. Catarina disse:
    Em 16/04/2012 às 15:05

    Olha, Já, eu como estudante de Letras já ouvi muitas teorias do porquê as pessoas não gostam de ler ou do porquê não conseguem ler. Cada um fala uma coisa sobre isso. Acho que para se fazer uma leitura é realmente preciso saber ler, não ler letras ou palavras, mas ler um conjunto de informações e poder compreender o que eles estão falando, sem precisarmos ficar muito tempo em uma mesma linha. Mas penso que ninguém nasce sabendo, é sempre questão de prática, quanto mais se lê, mais se aprende a ler e captar tudo de um texto.
    Mas aí vem a questão do por que ninguém quer nem tentar ler, porque ficam só em 4 livros? Para mim, isso é dos tempos de hoje em dia. Um fala que leitura é coisa de gente muito inteligente, então uma massa começa a pensar igual. Adolescente não lê porque os amigos falam que é coisa de gente “nerd”, e então, como será esse adolescente quando adulto? O que vai passar para os seus filhos se ele só sabe que leitura é habito de gente intelectual e chata? É questão de incentivo e de como saber incentivar, é mostrar que não é só sentar e passar horas dentro de uma coisa que vai aborrecer e sim algo que vai te trazer bons momentos e te levar para outros conhecimentos. É questão de mostrar a leitura como algo apaixonante.

  7. Vivina Assis Viana disse:
    Em 17/04/2012 às 23:16

    Janu,
    do mesmo modo que gente aprende a andar e a falar, e depois não vive sem uma coisa nem outra, o mesmo deveria -magicamente -, acontecer com a leitura.
    Uma vez descoberto o segredo das letras, seguiríamos lendo sempre, dia após dia, como se estivéssemos nos alimentando. E estaríamos. Sabemos que estaríamos. Quem consegue perceber o verdadeiro valor e o indiscutível prazer da leitura, sabe que ela alimenta, e não apenas o corpo. Quem se emociona com pequenos versos de um poema, ou com gigantescos enredos de um romance, sente que está alimentando a alma, e que não poderá deixar de alimentá-la com frequencia cada vez maior.
    Pena que não haja um mecanismo capaz de gerar o milagre da magia da leitura. Depender de escolas, exemplos e campanhas é problemático e, muitas vezes, desanimador, sobretudo em um país que, por inúmeros motivos largamente conhecidos, quase não tem acesso ao livro. Pena, sim, porque é certo que leitura vicia e, ma vez iniciado, nada fará com que aquele lleitor abandone o vício. No entanto, ninguém vicia em algo que não conhece, experimenta, repete, insiste. Pena.

  8. Claudete Munhoz disse:
    Em 19/04/2012 às 08:20

    Januária, parabéns pelo artigo e propostas que nos remetem a outra análise dos números apresentados.

  9. Deborah Marinho disse:
    Em 22/04/2012 às 19:27

    Lembro-me com muito carinho e admiração das minhas primeiras professoras nas escolas públicas onde estudei (década de 70), elas incentivavam a leitura e promoviam debates sobre os livros recomendados durante os bimestres, nos ensinando a desenvolver senso crítico e respeitar as diferentes interpretações de nossos colegas de sala. Era rotina a leitura de textos em voz alta, a fim de proporcionar aos alunos desembaraço ao falar em público. Ainda que muitas crianças não herdassem dos pais o hábito da leitura, na escola éramos apresentados às funcionárias da biblioteca e estimulados a frequentá-la e solicitar orientação das bibliotecárias. Acredito que as escolas tenham um papel indescritível na formação de leitores e que se houvesse um movimento maior de divulgação através dos grandes veículos de informação, as pessoas aprenderiam a utilizar as bobliotecas, pontos de leitura e tantos outros meios disponíveis de transmissão de cultura.
    Parabéns pelo artigo. Um abraço,
    Deborah

  10. Regina Scarpa disse:
    Em 27/04/2012 às 17:41

    Cara Januária,
    Você termina seu belo texto com a pergunta mais importante de todas. Citando Delia Lerner (2001): ” Para aproximar o ensino da aprendizagem é essencial entender de que maneira se transformam as formas de compreensão do objeto que se ensina.”
    Espero que a leitura e a compreensão caminhem juntas desde o início da escolaridade, pois deixar para “depois” é um dia que nunca chega para a maioria da população desse país.
    Bjs
    Regina

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