A leitura precisa ser encarada na escola como “tempo de reflexão”, em oposição ao ritmo acelerado do cotidiano. A partir dos comentários dos leitores deste blog, Januária Alves discorre sobre a alfabetização literária.
Por Januária Alves*

Continuando a nossa conversa sobre os retratos da leitura no Brasil, que rendeu aqui no blog ótimos comentários e adendos, é interessante observar como a questão da formação de leitores passa por diversos aspectos: pelo emocional (paixão), pelo cultural (a percepção de que “é coisa para os poucos letrados”, ou “que não requer nenhum esforço”) e também pelo educacional (é preciso “ensinar” a ler). Dentre essas possibilidades de análise do problema, focarei agora o aspecto que suscitou mais comentários: qual o papel da escola na formação de leitores?
A questão é bastante complexa, mas, como ponto de partida para uma reflexão, relato aqui a continuação da minha conversa com Dona Maria, minha faxineira. Comentei com ela que escrevi um artigo a partir da sua história e ela me disse: “Deve ter tido gente que falou que não leio porque não me ensinaram na escola. E é verdade. Entrei na escola aos oito anos, morava na roça… E chegando lá, minha professora tinha pouca paciência de me ensinar, porque eu estava atrasada em relação às outras crianças. Resultado: continuo atrasada até hoje!”.
Podemos começar, então, dizendo que ler é algo que se aprende. Seja pela repetição que se tornará um hábito e até uma paixão, como comenta a estudante de Letras Catarina, seja por meio de uma prática mais estruturada que a escola, em tese, estaria pronta para proporcionar aos seus alunos, como diz o professor Thiago.
A professora da Maria não teve “paciência” para ensinar uma menina, analfabeta aos oito anos, a ler e a escrever. Mas será que ela sabia que ler é algo que também se ensina? Ou como se ensina alguém a ler e a compreender o que leu? Será que ela gostava e tinha o hábito de ler?
Muitas vezes é na escola que nascem leitores. Ou morrem também. Tudo depende de como a leitura ali é abordada – como afirmou o professor Thiago, ela exige esforço e dedicação. Exige tempo, treino, e… Método. Não é à toa que os livros didáticos são os “campeões de leitura”, como bem lembrou Simone em seu comentário. É que eles devem ser lidos a partir de uma metodologia, pois pretendem ensinar algo, que o leitor deve aprender.
Longe de mim defender aqui uma leitura “técnica” ou mesmo “utilitária” (“ler para fazer prova”, definitivamente acho que não é por aí!), mas há um aspecto a ser considerado na relação entre a escola e a leitura: além de propiciar o letramento, a escola também deve ajudar os alunos a buscar o prazer da leitura por meio da reflexão, da oportunidade de reler um texto e de analisá-lo, para que eles consigam fazer perguntas, buscar respostas e relacioná-lo com o que estão vivendo. Na escola esse “tempo de reflexão” deve ser privilegiado em detrimento da “aceleração” que vivemos nos dias de hoje. É o tempo precioso do “aprender a aprender”. Inclusive a ler…
Tudo isso seria uma espécie de “alfabetização literária”. Algo na linha do que Sérsi Bardari, da Associação de Escritores de Literatura Infantil e Juvenil, comentou comigo por e-mail:
“Como professor, reconheço diariamente a dificuldade que os alunos apresentam. Faltam mediadores. Faltam pessoas que demonstrem as técnicas de leitura; que falem sobre o papel ativo do leitor no processo de atribuir sentido aquilo que se lê; sobre a necessidade de se estabelecer as relações intertextuais. Mas como estabelecer essas relações, se o conhecimento de mundo oferecido pelas escolas tem sido cada vez menor?”.
Eis aí mais uma questão para essa nossa longa reflexão sobre o que nos revelam – ou escondem – os retratos da leitura no Brasil…
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*Januária Cristina Alvesibi é colaboradora pedagógica das Editoras Ática e Scipione. Atua como jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 25 livros publicados.
7 Comentários
Olá, Januária, outro texto com reflexão brilhante sobre o tema. Leitores formam leitores. E os que não são leitores deveriam procurar não repetir o erro com seus descendentes.
Vamos ler! Vamos oxigenar a mente! Vamos ler, processar e devolver o conteúdo para a soviedade!
Parabéns, Januária!!!
Excelente artigo, Janu! Principalmente quando você levanta a questão do ler para fazer prova. É com bastante pesar que constatei que em várias escolas existe a visão errônea de que precisa obrigar o aluno a ler e aplicar prova “pra ver se ele entendeu tudo direitinho”. E isso não parte só da escola, não, muitos pais (muitos mesmo, pelo que pude constatar) exigem que assim seja. Não condeno totalmente este prática, pois entendo que dependendo do foco (estudos sobre a questão de estilo de uma determinada época, por exemplo) até pode haver justificativa, embora penso que existam outras vias de conferir o aprendizado de modo mais interessante. Mas isto também abre a discussão a respeito de todo um sistema de ensino que precisa ser repensado, principalmente no que diz respeito ao apoio ao professor. Por outro lado, esse tipo de postura (livro obrigatório na escola + prova), supõe a idéia de que a responsabilidade por incutir o hábito de leitura está toda nas costas da escola. Penso que o hábito da leitura, o prazer de ler, começa em casa, quando a criança presencia o pai, a mãe e os irmãos lendo, quando encontra livros espalhados pela casa, quando encontra uma estante aberta, com livros ao alcance, enfim, quando o livro não é um corpo estranho invadindo o ambiente, é um companherão que está ali à disposição.
Januária,
Em primeiro lugar, muito obrigado pela citação. Incrível como essa troca de ideias faz surgir novas ideias. Creio que um bom começo seria fazer a criança perceber que já sabemos ler antes mesmo de passarmos pelos processos de alfabetização e letramento. Isto é, antes de aprendermos a identificar o código linguístico, já estamos fazendo leituras. Lemos a natureza, lemos as paisagens, os ambientes, as pessoas, os objetos, as imagens que povoam nossa vida de forma cada vez mais avassaladora. Enfim, lemos a realidade circundante. Talvez, se soubéssemos ajudar as pessoas a fazerem a transição de um tipo de leitura a outro, mais letrado, estaríamos dando um grande passo para a formação de leitores da linguagem verbal, a partir de uma perspectiva mais reflexiva e crítica.
Oi Janu,
assim como Sérsi agradeço a citação, e concordo com essa visão que lemos o tempo todo, lemos o clima, o humor das pessoas, as sensações corporais e isso leva um tempo para aprender,bem como ler um texto é preciso tempo, paciência, persistência e alguém para ensinar.
Olá Januária esse artigo venho bem a calhar pois ultimamente tenho refletido bastante sobre essa questão da leitura/compreensão/entendimento agora que tenho filhas pequenas, pois antes não havia parado pra pensar nisso, como disse a D. Maria, ler é para quem sabe, quem foi ensinada, foi mais ou menos isso o que ela falou, não?
Observando minhas filhas creio que a escola contribui muito no “ensinar” a ler, mostrando o que existe no mundo literário, incentivando a leitura, não a leitura apenas para fazer prova como alguém escreveu aqui, mas para desenvolver o gosto, o hábito pela leitura, mas acho que dá trabalho, o que menos se quer hj em dia.
No caso da escola que elas frequentam, uma vez que estão concluindo a fase de alfabetização, digamos assim, vejo a questão da reescrita dos contos, a roda de conversa, a indicação de um livro que leu para o colega, tudo isso as faz refletir sobre o que leram e, creio eu, faz parte do “aprender” a ler, vc não acha? Aquilo que a professora da D. Maria talvez não tenha feito e, como vc disse, será que ela sabia que deveria fazê-lo? “Mas será que ela sabia que ler é algo que também se ensina? Ou como se ensina alguém a ler e a compreender o que leu? Será que ela gostava e tinha o hábito de ler?” Obrigada Januária por contribuir para a nossa reflexão.
JANUÁRIA,
São comentários e reflexões são excelentes, pois provocam uma reação em cadeia para os que tem a oportunidade de ter acesso a eles. Vejo isto pela repercussão que trazem – a partir da experiência relatada de D. Maria. E vejo tb. – agora que estou fazendo revisão e formatação dos tais capítulos – como a leitura fica como base para a sintaxe, para so conceitos de gramática, texto, etc… Como os outros, conte comigo e um grande abraço.
Ana
Sabe, Januária, eu passei a última semana observando as pessoas no trem, no metrô e no ônibus. As pessoas, em sua grande maioria, faziam três atividades: olhar pela janela, mexer no celular e ler livros. Foi interessante perceber quantas pessoas liam! E eu, em minha infinita curiosidade, tentei ver quais eram os livros que elas liam e, em geral, eram de ficção, de autores internacionais e de grande sucesso no mercado atual.
Sem entrar no mérito da qualidade das obras, porque de fato não tenho a menor condição de avaliá-las nesse critério, percebo que há uma presença dos livros como um companheiro para passar o tempo. Lembro-me de uma conversa numa roda de amigos, na qual um deles disse que sempre lia no metrô, mas o fazia “com fones de ouvido, boné e todo curvado, para que ninguém venha a atrapalhar”.
Essas imagens fazem-me pensar num lugar que nossa sociedade contemporânea pouco preserva mas que é o lugar da leitura de livros desde o fim da Idade Média: a intimidade. Creio ser importante resguardarmos um espaço para a leitura com a única finalidade de ficar consigo mesmo, aquela leitura que não diz respeito a ninguém. Que pode ser feita deitado na cama com a cabeça caída para fora, embaixo da mesa, fazendo cabaninha com lanterna, com as pernas para cima ou chacoalhando no trem da CPTM.
Essa leitura contagia…
Um Trackback
[...] nossas reflexões sobre a leitura, destaco aqui um trecho do comentário postado pelo professor Thiago Aguiar, que fez a seguinte observação: “Sabe, Januária, eu passei a [...]