Mais que aprender a andar sob rodas, Marcela aprendeu a não se intimidar diante das dificuldades. Hoje professora e autora de histórias infantojuvenis, ela relata as suas vivências escolares em uma série de posts para este blog. O primeiro você lê a seguir.
Por Marcela Cálamo*

Marcela nos tempos de AACD. Arquivo pessoal.
Aos seis anos e meio, parei de andar. Criança sapeca que adorava correr, andar de bicicleta e ir à escola, de repente vi minha vida mudar radicalmente. Precisei de dois anos para recuperar a saúde e reaprender a fazer coisas simples como tomar banho, pegar meus brinquedos ou alcançar a porta da rua. Depois, mais adaptada, voltei a estudar (refiro-me ao retorno formal, pois, durante o intervalo, a minha mãe, com a sabedoria que só as mães têm, ensinara-me a ler e escrever. Jamais permitiria que eu permanecesse analfabeta até aquela idade!). Após um teste, fui matriculada na 2ª série, hoje chamada de 3º ano, em uma escola da AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente.
Minha classe era uma mistura de crianças em cadeira de rodas (como eu), muletas, próteses, andadores. Todos querendo aprender. Estudávamos pela manhã, já que à tarde cada um tinha uma atividade específica de reabilitação. Destes tempos, lembro-me que a professora era doce e carinhosa. Todos a adorávamos. No ano seguinte, porém, as coisas complicaram. A educadora que assumiu o 4º ano era bem diferente da anterior; exigente, formava o time daquelas que não dão moleza para ninguém.
A coisa apertou para o meu lado numa de Matemática. A nova professora viu que eu estava com dificuldades nas operações de divisão. Explicou, explicou novamente, e nada. Empaquei. Bateu o sinal do lanche. Todos os colegas saíram da sala – menos eu, que fiquei de caderno aberto e exercício em branco, de castigo, até aprender a bendita conta.
Naquela época, não tinha noção da importância dos seus duros gestos, que exigia de mim o melhor, ao invés de se acomodar diante da minha dificuldade. Tirando a deficiência e a necessidade de cada um, éramos apenas crianças comuns, querendo aprender e com imenso potencial de fazê-lo. Ela nos via assim.
Ninguém naquela sala era recebido de forma diferente, nem chamado de especial. A maneira como fui tratada mostrou-se essencial para a minha transferência para uma escola regular, ocorrida no ano seguinte, na qual não tive medo de novos professores, nem de novos colegas, tampouco dos desafios cotidianos. Simplesmente sabia que não encontraria algo diferente do que já havia vivido.
Quando vejo uma criança com deficiência sendo tratada como “especial”, lembro-me daquela professora e sou grata por ter me tratado como uma criança comum, ter exigido de mim o que exigiria de qualquer aluno, em qualquer circunstância. Ela sim foi especial, uma pessoa ímpar na formação do meu caráter de pessoa comum.
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*Marcela Cálamo é professora particular e autora de Rodas, pra que te quero! (Editora Ática, 2006). Paraplégica desde os 6 anos devido a uma infecção na medula, é mãe de dois filhos e vive rodando feliz por aí, sempre em busca da afirmação dos direitos das pessoas com deficiência.


Os chamados “problemas de comportamento” sempre são fonte de dor de cabeça para o professor. Muitas dúvidas surgem sobre a melhor maneira de lidar com esses episódios que geralmente envolvem