Literatura e proposta pedagógica

Quando e como as datas comemorativas se tornam uma oportunidade para trabalhar literatura com os alunos? A literatura deve assumir funções “pedagógicas”? Infoeducadora e colaboradora deste blog, Januária Alves ilumina estes questionamentos no artigo a seguir.

Por Januária Alves*

Em uma de minhas formações para bibliotecários fui questionada sobre o que penso sobre a indicação de livros para se trabalhar datas comemorativas na escola. Questão específica, mas que, a meu ver, careceu de uma resposta mais genérica.

Genérica quando acho que temos que começar perguntando a respeito da função da literatura na escola: ela deve ser “pedagógica”? Deve ser “utilitária”, ou seja, deve se prestar a um objetivo “educativo”? Os livros trabalhados na escola devem fazer parte de um projeto pedagógico?

Acho que sim. Pois tudo o que está sendo abordado na escola deve ter uma proposta pedagógica e a literatura, com certeza, deverá ser objeto de um planejamento consistente e estar alinhada ao projeto pedagógico que rege toda a escola. Os livros que são trabalhados no ambiente escolar devem, portanto, ter um plano de trabalho que permita que sua leitura seja abordada de maneira diferente daquela feita em casa.

O binômio literatura/autonomia tem rendido muitos debates, com posições divergentes. Há quem afirme que a literatura deve ser livre de condicionamentos culturais, econômicos, sociais, históricos, geográficos e de toda ordem, devendo expressar tão somente as grandes questões da humanidade. Por outro lado, sabemos que o ser humano, por sua própria condição, não é livre destas variáveis. Como então a literatura poderá sê-la?

Se partirmos do pressuposto de que a literatura tem, sim, seus objetivos, nada impede que ela seja trabalhada na escola com uma proposta definida, tendo-se em vista a aquisição de conhecimentos que ampliem o repertório dos alunos. Nesse sentido, as datas comemorativas podem, sim, ser abordadas. A questão é: em que perspectiva?

O professor espanhol Jorge Larrosa afirma que o caráter pedagógico (entenda-se aqui utilitário) de um texto literário é uma finalidade de leitura, mais do que a característica de um texto. Isso quer dizer que é a proposta pedagógica que vai determinar que tipo de leitura pretende-se fazer de uma obra. E isto faz toda diferença no trabalho com a literatura em sala de aula.

Se o professor ou o bibliotecário têm clareza daquilo que desejam ensinar a partir de uma leitura, o leitor/aluno será orientado a descobri-la. Mas isto não significa que este percurso será isento de autenticidade, de reflexões autônomas ou de aprendizado próprio. O aluno certamente ampliará seus conhecimentos e sua visão de mundo se o professor souber selecionar textos que contenham questões instigantes, que tragam diferentes visões sobre determinado tema ou, no mínimo, que provoquem inquietações no leitor. Como diz a escritora e educadora Maria Teresa Andruetto

“(…) A literatura é, basicamente, uma interrogação sobre o mundo. (…) Um bom livro, embora trate de questões que nos são alheias ou reflita ideias que não coincidem com as nossas, consegue nos comover. O mundo não está de um lado e a arte, de outro. Tudo está junto porque estamos imersos no social”.

[“Os valores e o valor correm atrás do próprio rabo”, in.: Por uma literatura sem adjetivos, Ed. Pulo do Gato, 2012]

Sendo assim, ao se abordar datas comemorativas por meio de livros de ficção, por exemplo, é preciso levar em conta a qualidade literária daquele texto, as questões que apresenta, as possibilidades de ampliação da discussão daquele tema e se os objetivos pedagógicos estarão contemplados. Deste modo a leitura obedecerá a um plano de trabalho específico e dirigido, e com certeza propiciará, além de uma experiência literária interessante para o leitor, grandes aprendizados ao aluno.

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*Januária Cristina Alvesibi é colaboradora pedagógica das Editoras Ática e Scipione. Atua como jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 25 livros publicados.

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“Escola não é empresa”

“A escola não é diferente de uma fábrica de parafusos apenas porque nela se lida com seres humanos.” Um dos maiores estudiosos brasileiros em gestão escolar, Vitor Henrique Paro discorre neste artigo sobre a dimensão educativa da escola.

Por Vitor Henrique Paro*

Ora, a escola é, sim, uma empresa, se considerarmos o significado geral dessa palavra. Ou seja, empresa é todo empreendimento humano organizado para a produção de algo ou para a busca de fins, com a utilização do esforço humano coletivo.

Sim, pode-se argumentar, mas a escola não é uma empresa como qualquer outra; por isso não lhe é apropriado esse título. Mas, na verdade, isso acontece com toda empresa. Uma fábrica de calçados, por exemplo, também não é uma empresa qualquer, diferenciando-se em muitos aspectos de uma fábrica de automóveis, de um banco ou de um hospital. No entanto, todas elas continuam sendo empresas, embora com características diferentes umas das outras.

Esse raciocínio, todavia, não deve satisfazer os defensores da natureza única da escola. Os que se acham comprometidos com o mundo escolar insistirão que existe na escola alguma coisa de especial que faz dela um empreendimento peculiar. Pode até não haver uma explicação racional, pensam eles, mas “sentem” que esse algo existe e não pode ser ocultado nem mesmo pelo discurso “técnico” dos gestores e burocratas fazedores de políticas públicas.

Um argumento muito usado para diferenciar a escola é que, diferentemente da empresa em geral, ela lida com seres humanos, não com simples objetos. Essa alegação é lembrada mesmo por aqueles que querem fazer da escola mero negócio; embora o utilizem apenas para parecerem piedosos ou para serem simpáticos à causa oposta, já que eles mesmos não o levam muito a sério em suas decisões.

Essa justificativa tem seu fundo de verdade, mas não consegue dar conta da questão. Afinal, toda empresa lida necessariamente com seres humanos. A escola não é diferente de uma fábrica de parafusos, por exemplo, apenas porque nela se lida com seres humanos. A fábrica de parafusos também só funciona com seres humanos, muito embora explorados pelos proprietários do capital. Na verdade, esse argumento parcial parece fundamentar a ação dos que querem fazer da escola uma empresa como qualquer outra, devotando aos professores o mesmo desprezo que o capital dedica aos trabalhadores em geral.

Ao tentar aplicar na escola as cínicas técnicas de “relações humanas” aplicadas na empresa produtora de mercadorias, os modernos ideólogos da gestão empresarial ignoram completamente a especificidade do trabalho que se realiza na instituição educativa. Essa singularidade, que o verdadeiro educador nem sempre sabe exprimir, mas sente que é real em sua prática diária, advém do fato de que, na escola, não há apenas relações entre humanos, mas um tipo único de relação – a relação pedagógica –, pela qual o próprio humano é construído em sua configuração histórico-cultural.

Não se trata portanto de negar à escola sua condição de empresa, mas de afirmar seu caráter de educadora. Certamente isso não pode servir de desculpa para não lhe dar um tratamento técnico-administrativo, aplicando a melhor gestão na busca de seus objetivos; mas esse tratamento deve ser de acordo com sua especificidade pedagógica.

A dimensão educativa da escola é muito mais complexa e grandiosa do que o propalado. O trabalho pedagógico só tem condições de se realizar plenamente se for de fato livre, não se confundindo com o trabalho forçado da produção capitalista em que o salário é a razão necessária e suficiente. A vontade soberana do aluno e a vontade soberana do professor extrapolam a motivação meramente pecuniária e não se satisfazem com os mais sofisticados mecanismos administrativos de uma empresa qualquer.

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*Vitor Henrique Paro é mestre, doutor e livre-docente em Educação. Foi pesquisador sênior na Fundação Carlos Chagas e professor titular na PUC-SP. Atualmente é professor titular (aposentado) da Faculdade de Educação da USP, onde exerce pesquisa, docência e orientação em cursos de pós-graduação e coordena o Gepae – Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração Escolar. Publicou, entre outros, os livros Gestão democrática da escola pública (Editora Ática, 2000) e Gestão escolar, democracia e qualidade do ensino (Editora Ática, 2007).

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Como encarar a “falta de respeito”?

A partir do comentário de uma leitora do blog, a psicóloga Sonia Casarin aponta reflexões e saídas para conflitos entre alunos e professores

Por Sonia Casarin*

Uma mãe postou, recentemente, o seguinte comentário em um dos meus posts publicados aqui no blog: “Tenho um filho de 12 anos e ele não tem noção de respeito com uma determinada professora. Já conversamos diversas vezes, mas não tivemos resultado satisfatório em nenhuma delas. Como posso ajudá-lo?”.

Chama a atenção o fato de a reação do aluno acontecer somente com uma professora. Embora o professor e o aluno tenham seus lugares e seus papéis determinados, toda relação é única e o educador desenvolve um vínculo particular com cada educando.

E o que há de único entre os protagonistas do caso relatado pela mãe? É possível levantar alguns fatores influenciadores dessa relação:

  • A professora pode ter alguma particularidade que desagrada ou perturba o aluno;
  • A disciplina que ela leciona pode ser difícil para ele;
  • A maneira como ela trabalha com o conteúdo pode não ser motivante;
  • A maneira como ela trata os outros alunos pode despertar reações de ciúme;
  • O horário das aulas também pode influenciar na reação da criança – a primeira ou a última geralmente cansam os alunos, assim como as aulas que acontecem depois do intervalo do lanche.

Estas são algumas possibilidades que podem provocar a “falta de respeito”. Se as conversas entre mãe e filho não têm tido resultado satisfatório, a minha pergunta é: como são essas conversas? O que a criança diz sobre a situação? Noto que muitas vezes o que é chamado de conversa reduz-se à transmissão de regras, ou seja, alguém diz à criança o que ela deve ou não deve fazer.

Costumo ouvir de mães que suas conversas com o(a) filho(a) baseiam-se em explicações das razões pelas quais precisam respeitar a professora. Mas, quando pergunto a reação da criança, normalmente a resposta é que “ela não disse nada”. Ora, mas quando o interlocutor não diz nada, não há conversa – há, antes, um monólogo. É preciso ouvir o jovem, saber o que ele pensa sobre a aula, sobre a professora, sobre a matéria, conversar sobre suas impressões.

Quanto à professora, como é a experiência dela com essa criança? Qual é a impressão que ela lhe causa? Quais são suas expectativas? Essas expectativas estão se realizando com o desempenho e o comportamento do aluno? Como a professora coloca a si mesma na relação com os alunos? Qual é seu estilo de liderança? Como transmite os conteúdos e lida com a (in)disciplina na sala de aula?

O relacionamento humano é sempre uma via de mão dupla, na qual influenciamos e somos influenciados pelas ações e reações das outras pessoas. Aquilo que todos fazemos gera impressões e reações nos outros e o que estes outros fazem também nos afeta. Muitas vezes contribuímos, sem perceber, para que as pessoas reajam e se comportem como o fazem quando estão conosco.

Deste modo, a melhor maneira de começar a mudar a situação é modificando o próprio comportamento. A criança precisa da orientação do adulto para alterar seu comportamento e o adulto precisa fazer uma auto-observação para fazê-lo.

Não se pode esquecer também que tanto os alunos como o professor fazem parte de um contexto maior que é a escola – obviamente, a maneira como ela insere e promove a sua comunidade é mais um fator a ser analisado (e, possivelmente, repensado). Espero ter contribuído!

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*Sonia Casarin trabalha com inclusão desde quando “inclusão” ainda não existia no vocabulário escolar. É doutora em Psicologia pela PUC-SP, autora de Talento e deficiência: como incluir alunos com diferentes tipos de inteligência (Editora Ática, 2011), docente da pós-graduação em Educação Inclusiva do Instituto Superior de Educação Vera Cruz e responsável pelo SOS Down.

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A literatura é infantojuvenil,
mas o escritor é um adulto!

“Uma criança que possui boa experiência literária pode fazer uma leitura muito mais rica e variada de uma obra de Ana Maria Machado, por exemplo, do que um adulto que possui repertório restrito”

Post de Januária Alves “A literatura é infantojuvenil, mas o escritor é um adulto!”. Ilustração de Camila Olivetti

Por Januária Alves*

Recebi recentemente um e-mail de um professor comentando a seleção de livros que coordenei para a revista Nova Escola (sobre a qual já falei aqui), sob certo ponto de vista que achei muito instigante:

“Como você sente esse distanciamento entre ser adulto e ser criança quando escreve para crianças? Quanto os livros infantojuvenis são produções dos adultos? Quando se faz uma seleção de livros, pensando na qualidade dos que são oferecidos e no próprio processo de escolha, tudo isso passa por estas questões?”.

As perguntas que ele coloca já são antigas, e sempre renderam muitas discussões. Trata-se de um assunto complexo, que envolve fatores culturais, educativos, econômicos e sociais. Por isto, ao conversar com ele, tentei encaminhar o tema fazendo-o pensar um pouco no processo de produção literária, que oferece uma visão do todo e não só da escrita dos textos. Farei este exercício também aqui.

Em primeiro lugar, é fundamental começar constatando que a definição do que é literatura infantil e juvenil é uma questão de mercado. Aqui no Brasil, dos anos 1970 em diante essa divisão começou a vigorar porque o setor editorial identificou que as escolas começavam a incorporar livros de literatura em seu currículo, e que a este público poderia direcionar sua atuação. Até então, os livros indicados para crianças eram aqueles que abordavam temas próprios da infância, quando muito. No mais, o que era lido para crianças, lia-se entre adultos.

Isso me faz pensar que, na verdade, a boa literatura é atemporal. A classificação etária é modulada conforme o grau de autonomia e interesse do leitor ou mediador. Uma criança que possui uma boa experiência literária pode fazer uma leitura muito mais rica e variada de uma obra de Ana Maria Machado, por exemplo, do que um adulto que possui um repertório literário restrito.

Lembro-me muito bem de querer ler Shakespeare aos 12 anos e por isto ouvir da freira que tomava conta da biblioteca da minha escola: “Leve, leia e entenda o que você conseguir. Afinal, você terá a vida inteira para conhecer Shakespeare…”. No que ela estava absolutamente correta, pois ainda hoje leio Shakespeare e a cada nova tentativa descubro um “outro livro” naquele que já li. Como brilhantemente anotou Jorge Luis Borges (1899-1986) em seu texto “A poesia”: “Mudamos incessantemente e é possível afirmar que cada leitura de um livro, que cada releitura, cada recordação dessa releitura renovam o texto”.

Então, acho que as listas e indicadores de leitura para crianças e jovens – inclusive o que coordenei pela revista – devem ser como uma espécie de “mapa”, um conjunto de sugestões que podem ou não servir paras as faixas etárias indicadas. Elas são mesmo “uma” leitura possível, uma possibilidade de escolha e não a única disponível.

O que elas não podem fazer é restringir a leitura, pois quem não gosta de ler Monteiro Lobato? Adultos se encantam até hoje com Os Três Mosqueteiros e mesmo obras de autores mais contemporâneos tidos como infantojuvenis, como Lygia Bojunga ou Bartolomeu Campos de Queirós, encontram fãs entre os adultos!

Falando como autora, minha preocupação é fazer uma boa história, essencialmente. Ao criar o texto busco uma temática que se adeque às inquietações daquela faixa etária, ou a uma “crise” específica daquele momento. Por outro lado, tal como fez Shakespeare, sei que nunca errarei se escrever sobre os dramas da alma humana que, passam séculos e idades, são sempre os mesmos.

Ao invés de pensar que sou uma adulta escrevendo para crianças, prefiro me prender ao fato de que sou uma pessoa (escritora) escrevendo para outro sujeito (leitor), alguém que apenas tem uma idade diferente, que está vendo o mundo, naquele momento, de uma forma distinta – acredito que a criança não é “um vir a ser”; ela apenas é, inteira, com a idade e as experiências que possui.

Podemos, autor e leitor, compartilhar impressões a partir da visão de mundo que cada um carrega. Acho que as histórias têm o seu poder e, se são boas, se provocam e inquietam, vão transcender as diferenças etárias, culturais, econômicas e sociais. Compartilhar uma boa história é um prazer que é do ser humano e ponto. Tenho certeza! E você?

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*Januária Cristina Alvesibi é colaboradora pedagógica das Editoras Ática e Scipione. Atua como jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 25 livros publicados.

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Para ser efetiva, a cidadania online precisa conectar gerações

A partir de experiências como o Diário de Classe – página criada no Facebook por uma estudante da rede pública de ensino de Florianópolis, Rodrigo Nejm, psicólogo e Diretor de Prevenção da SaferNet, discute os desafios da educação para o uso ético e responsável da internet

“Para ser efetiva, a cidadania online precisa conectar gerações”. Artigo de Rodrigo Nejm, ilustração de Alexandre Marques

Por Rodrigo Nejm*

A democratização do acesso à internet tem incluído milhões de brasileiros nos ambientes digitais e permitido que mais e mais pessoas desfrutem das inúmeras oportunidades de relacionamento social, aprendizado cultural, político e de lazer facilitados pelas Tecnologias de Comunicação e Informação, as chamadas TIC.

As tecnologias mudam com muita velocidade e, no mesmo compasso, são incorporadas à vida dos brasileiros: ainda que 47% da população nunca tenham navegado pela internet, o acesso já é uma realidade para 75% dos jovens entre 10 e 15 anos de idade e para 81% dos que possuem entre 16 e 24 anos. Entre as crianças, o índice também é alto: 27% da faixa entre 5 e 9 anos navegam normalmente, 51% usam computadores e 60% celulares (dados do CETIC.br aqui e aqui). E, ainda, segundo levantamentos recém-saídos do forno, 70% das crianças e adolescentes entre 9 e 16 anos têm perfil próprio nas redes sociais.

Vivemos em tempos de profundas mudanças psicossociais na infância, na adolescência e na juventude – mudanças produzidas por muitos fatores, dentre os quais (mas não apenas) o uso intenso e diverso das TIC. A tecnologia desempenha papel de destaque na transformação do lazer, do estudo, do comunicar, do brincar das novas gerações, e vai além: também radicaliza mudanças no universo de consumo, no conflito entre gerações, no mundo do trabalho, na conquista de direitos civis e mesmo políticos (vide os acontecimentos no Egito, no início de 2011).

O recente caso do Diário de Classepágina criada no Facebook por uma estudante da rede pública de ensino de Florianópolis – chamou a atenção da imprensa e dos internautas. Ao usar a rede social como veículo de denúncia dos problemas na infraestrutura e na didática de professores de sua escola, a adolescente gerou uma experiência ímpar de comunicação, engajamento e potencialização online da cidadania e da apropriação social sobre os espaços públicos.

Tanto que a iniciativa fez eco: há hoje dezenas de “diários de classe” espalhados pela internet. Sua atuação disparou um processo colaborativo bastante interessante que reverberou (e pode continuar reverberando) no engajamento dos alunos com o cuidado e a manutenção das escolas, na participação ativa das comunidades em conselhos escolares e gestão comunitária, e até na inclusão de temas transversais no projeto político pedagógico das instituições.

O exemplo é, sem dúvida, interessante, mas precisamos lembrar que o denuncismo é apenas uma primeira fase do controle social que pode (e precisa) ser complementado com outras atitudes que nos permitam consolidar uma participação cidadã mais ampla e ética no cotidiano. Afinal, acompanhar, cuidar do bem público e monitorar a qualidade das políticas públicas devem ser atitudes cotidianas e rotineiras, inerentes à democracia.

Aprender a usar um site de rede social, criar um blog, fazer vídeos e manipular imagens são tarefas que as crianças aprendem rapidamente, e sozinhas. No entanto, adotar uma postura ética, crítica e responsável no uso destes serviços e aparatos tecnológicos é algo que depende do grau de mediação e da construção conjunta de valores possibilitados pela conexão entre as gerações. Como pais e professores podem condenar a postura online de seus filhos ou alunos se não trabalharem previamente com eles a construção de sua cidadania digital? Como asseguraremos segurança, privacidade e integridade sem diálogo sobre como interagir online, quais informações fornecer e quais fotos publicar?

Faz-se urgente a apropriação pedagógica das TIC também como ferramentas para a promoção dos direitos humanos e da cidadania – desde o primeiro clique na escola ou em casa. E promover a apropriação das tecnologias na educação não é apenas ensinar a usar recursos em sala de aula ou adaptar livros para novas plataformas, uma vez que o caráter dinâmico, interativo e colaborativo dos sites de redes sociais exigem compreensão ampliada da noção de espaço público global.

Crianças e adolescentes devem ser orientados para que compreendam a dimensão pública do ciberespaço tanto no âmbito dos direitos quanto dos deveres previstos em nossa Constituição. Educar no mundo contemporâneo é uma ação que exige educar na e para essas novas ruas e praças cibernéticas nas quais as novas gerações passam boa parte de seu tempo.

O desafio geracional na familiaridade com as novas tecnologias não será um obstáculo tão grande neste processo se o foco estiver na educação cidadã, e não na educação pragmática do uso das TIC. Educar para a cidadania já é uma meta transversal das políticas educacionais. Agora, as TIC precisam urgentemente ser incorporadas aos projetos pedagógicos – e não apenas como recursos técnicos, mas como produtoras de novos espaços de socialização, novas expressões culturais e mediadoras na formação de cidadãos críticos e engajados.

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Para saber mais
Buscamos na SaferNet contribuir com Recursos Educacionais Abertos que usem intensamente as tecnologias para a promoção e defesa dos Direitos Humanos na Internet no Brasil, favorecendo a conexão entre gerações em processo mútuo de aprendizagem dentro e fora das salas de aulas. Para saber mais, consulte o nosso espaço dedicado a Educadores e o nosso Canal de ajuda.

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*Rodrigo Nejm é psicólogo, Diretor de Prevenção da SaferNet Brasil, doutorando em psicologia na UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Desenvolve materiais pedagógicos e pesquisas para prevenção aos cibercrimes contra Direitos Humanos no Brasil, pesquisa as relações entre a psicologia e as novas mídias e atua como membro do Grupo de pesquisa sobre Interações, Tecnologias e Sociedade (GITS/UFBA).

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